Sentimentos acontecem dos fatos

Então tá…

Meu caro,

Pensei que não chegaria até aqui. Pensei que não teria a chance de lhe escrever este ano, o que poderia significar estar agora no seu convívio jogando um Atari, ou ouvindo um rock daqueles que você apreciava, e eu nunca. Quem sabe seja quase isso quando for a hora…o que seria um consolo.

O fato é que este ano foi impiedoso e mortalmente agreste. Uma aridez de sangrar a fé quase todos os dias; um desconsolo de deitar tristeza pelos olhos a cada notícia sobre os conhecidos, e desconhecidos, que partiam sem direito a despedidas; um lidar – sem habilidade adquirida – com a tentativa de sobreviver estando a alma devastada por meses que parecem não ter fim. Um olhar suplicante aos céus que se mantinham silenciosos a sugerir uma desocupação irrestrita, refletindo neste meu peito perversamente despejado pela ausência da alegria. Vazio por dentro e por fora.

Meu caro, não foi fácil, continua não sendo, e por conta de um realismo fantástico (longe de ser mágico) as dificuldades perseveram em qualquer dos rascunhos que projetamos para o futuro. Este 2021 é celebração da mortandade, que me surpreendeu tanto quanto esse espanto de ainda estar viva. Ou quase viva, melhor dizendo, já que muitas das testemunhas da minha história se ausentaram na frieza de um comunicado feito por terceiros e, os demais, sem exceção, se expuseram a toda sorte de processos imprevisíveis.

Foi um ano da intolerância. E como foi! Foi um ano desvairado, enlouquecido, em que, no exílio, o bom senso vagueia até hoje por terras ignoradas. Foi um ano dos ignorantes, sem dúvida! Clamei por vacina com maior fervor que nas vezes em que evoquei por qualquer outra solução divina. Me deparei com a constatação aterrorizante de como são incompreensíveis os seres humanos que negam a ciência, devotos inconsequentes do suicídio e, portanto, defensores imputáveis do genocídio. Uma cadeia ilógica que vem sustentando uma loucura quase coletiva. E como dói saber que a insanidade se tornou uma opção, pessoal ou política, para trepidar os alicerces, que até então presumia postos, da civilização. Há que se reconstruir tantas ruínas… Há que se calafetar tantas ausências que se deram em números superlativos… Há que se lapidar tantos sentimentos que embruteceram…

Mas o fato, meu caro, é que hoje temos por tatuagem as crateras que indicam que nós sobrevivemos apesar dos tiros cruzados a que fomos alvo móveis. Transitamos entre a sanidade e o delírio acompanhando os acelerados índices da tragédia. Estamos em pé, suportados por bengala e algumas próteses, mas sobrevivemos, mesmo que temporariamente, e chegamos na linha invisível que separa um ano de outro, sem embaralhar os acontecimentos para que cartas diferentes pudessem nos ser distribuídas garantindo um novo jogo da vida.

Chegamos aqui e agradecemos ainda podermos reconhecer os nossos afetos que conosco resistiram a tudo de indesejável que circulou por nós. É certo que o sentido de vitória está embaçado pela poeira dos escombros do qual ressurgimos. É certo que olhamos para os lados e ensaiamos um sorriso, úmido em lágrimas, estabelecendo uma corrente de confiança que tenta se fortalecer na expectativa de que outros também estejam tentando costurar os pedaços de probabilidades recuperados dos entulhos. Mesmo despencados, ainda renovamos o ar dos pulmões e por enquanto isto basta para identificarmos o sucesso.

Neste Natal, nesta virada para um Ano Novo, estamos privados dos abraços e beijos. Estamos recomendados a evitar festas. Nossas intenções terão que ser muito bem afinadas e vigoradas para transpor as ondas na frequência do Wireless Fidelity (Wi-fi) e chegar aos nossos queridos destinatários com a força de um desejo, de uma vontade. Por enquanto é só o que podemos, e que bom que ainda podemos esse pouco.

Coloquei na varanda da casa algumas luzes, dessas que costumavam me deixar hipnotizada acompanhando um pisca-pisca de cores e luzes. Assim, quem sabe, a alegria dê uma voltinha por aqui, aceite um cafezinho, não se lembre das preocupações, fume escondido um cigarro, se esqueça das horas e fique até a inauguração de um novo ciclo. E, sobretudo, que saia daqui mais confiante.

Coloquei no coração boas sementes de sentimentos, cuidarei delas com muita dedicação para que floresçam. Darei flores imaginárias aos queridos amigos que chegaram comigo até aqui. Não tenho grande variedade, nem mesmo quantitativo suficiente para um buquê, mas serão flores crescidas na admiração e irrigadas na ternura.

Quanto a você, meu Amigo, receba o perfume deste jardim idealizado no amor. Que sejam perfumadas as nuvens de onde você nos observa. É certo que em breve nos encontraremos, mas por enquanto ainda tenho que acumular vertigens na busca de alguns entendimentos.

Se não for feliz, que ao menos seja um ano novo para a esperança.

5 Comentários

  • Tania

    “Uma cadeia ilógica que vem sustentando uma loucura quase coletiva”.. bem assim. Mas temos nosso jardim, ainda que combalido por vzs. Evoé, Carlucho Beijo minha amiga.

  • Renato Soares Menezes

    Se o ano de 2020 já fora considerado como para ser esquecido, foi o ano do vírus e do confinamento, provocando numerosas mortes e falências (e não só: o Reino Unido deixou de fazer parte da União Europeia; George Floyd foi morto em Mineápolis; um cidadão ucraniano foi morto no aeroporto de Portela, em Lisboa; os jogos olímpicos de Tóquio foram cancelados; Trump perdeu as eleições para Biden…), o que dizer de 2021?

    Iniciado sob a bandeira da esperança, 2021 revelou-se, contudo, trágico: o número de vítimas fatais provocadas pela pandemia cresceu em um ritmo absurdo. Mas parece que aprendemos várias coisas: a ciência salva, o negacionismo mata; uma nação que não valoriza as suas mentes mais brilhantes está fadada ao obscurantismo; quando a ideologia se impõe sobre a razão, o risco de desastre é grande; precisamos uns dos outros, como nunca; e, de forma paradoxalmente aparente, temos que nos manter afastados uns ds outros, como sinal de respeito pelo próximo; o real valor do amor; a importância de um abraço demorado… E assim, o ano vai chegando ao seu término – e, mais uma vez, mantemos acessa a chama da esperança por dias melhores em 2022, pois, como diz o dito popular, a Esperança é a última que morre… Há quem diga que isso é bobagem (devem ser pessoas amrgas ou enraivecidas), mas não é; é a Esperança que nos faz avançar, lutar por nossos desejos ou sonhos, indiviiduais ou coletivos. E é com esperança que veremos o raiar de um novo ano.

    Parabéns à Autora por um texto que nos leva a refletir sobre a vida que passou, a que ora vivenciamos e a que virá. De forma destemida, porque cheia de esperança.

  • Diderot Lopes

    Tudo muito lindo e repleto de simbolismos. O texto, a imagem, a sensibilidade, o compartilhar solidário dizem muito da Autora. Muito obrigado e parabéns!

  • Mônica Barros Coutinho

    Querida Vera, seu texto expressa o que estamos vivendo de uma forma poética e contudente! “Uma aridez de sangrar a fé…” ” Como dói saber que a insanidade se tornou uma opção…” “Chegamos aqui e agradecemos…” E, apesar das perdas, não estamos sós, partilhamos essa esperança e as flores que brotam do coração! Resistimos! Parabéns pelo texto!

  • Ana Palacky

    Querida Vera Cristina. Seu novo texto e uma pérola. Sensível. Intimista. Cheio de saudades e doçuras. Quando nos deparamos com mais uma terrível e ameaçadora onda de cólera, suas reflexões se fazem mais presentes e intensas. Receio de novas perdas, temores, despedidas. Tempos tristes, chuvosos e languidos. Nas paisagens invernais não há brilho, não há alegria no ar. Noites longas de lua tímida, chorosa e cinzenta. O poeta se refugia nos sonhos, e como você, nas lembranças, nas janelas que se fecham e nas amarguras que moram na alma. Abraços afetuosos, Ana Cristina.

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