Saltaram dos livros e vieram para cá,  Sentimentos acontecem dos fatos

Sobre trocar de calçada

“O problema não é Deus, é o que inventamos Dele. As pessoas têm certeza demais sobre as vontades de Deus, acho até que algumas criaram Deus em vez de terem sido criadas por Ele. Deus não é de pensar, é de sentir. É um colo de braços fortes e delicados, ninando a gente num mar furioso, esquenta seu coração nesse colo, respira com Ele. Deus não é um lugar de certeza, é só um pouco de esperança.” Carla Madeira, romance “Tudo é Rio”.

As famílias Salomão e Assis se juntaram para inaugurarem uma nova geração. Anita Salomão e Ricardo de Assis se uniram em matrimônio. Era um casal que se notabilizava pelas diferenças, mas tantas desconformidades, longe de afastarem os dois, faziam com que se prendessem no reconhecimento de serem indivíduos que a um ponto da vida resolveram compartilhar a mesma estrada, trocando impressões distintas ao longo do caminho.  Dentre as diversidades que enriqueciam as suas vidas, a fé religiosa de Anita contrastava com as argumentações de Ricardo ao se declarar um ateu convicto. Os depoimentos abaixo demonstram que Anita e Ricardo seguem juntos, em calçadas opostas, atravessando as ruas de sua história.

– xx –

Já precisei menos de Deus. Isso quando jovem. No tempo em que as adversidades não emperravam a caminhada: era tropeçar, cair, e seguir avante sem qualquer curativo, somente uns ais, ais, ais…ui, ui, ui… e estava tudo certo: passos na estrada. Mas esse era um outro eu que a vida se encarregou de esfregar num ralador bem fininho, para a certeza de nenhuma parte do que eu fui ficar reconhecível. Sim, fui um outro, antes de me tornar alguém miserável nos sorrisos e arrastando um silêncio que impõe um distanciamento intransponível, também realçado pela fenda profunda e sempre visível entre as minhas sobrancelhas.

Não ter nenhuma urgência em Deus me fez conquistar algumas coisas. Quase me fez acreditar que só havia no mundo o centro, onde me acostumei a situar deixando que outras pessoas, julgadas menos importantes, ocupassem os demais espaços. Assim, pleno em soberba, é certa a irrelevância de Deus. Todas as minhas escaladas, todos os meus triunfos, eram méritos exclusivos da minha pessoa, sem ter que agradecer a ninguém pelos meus êxitos. E o humor que naqueles tempos era faísca constantemente ativa em qualquer direção do entendimento, se extinguiu na distração do meu olhar, incapaz de se firmar em algum ponto determinado. Fiquei menos inteligente, perdendo o humor. A exuberância que existia em mim, mesmo que áspera, ficou desbotada, irreconhecível, tão destruída quanto os meus desenhos de aquarela, que quando menino ficavam borrados com o excesso de água atabalhoadamente entornada sobre eles.

O meu sucesso se submetido a uma autópsia, poderia ser diagnosticado com doses bem equilibradas de determinação (obstinado), conhecimento (curiosidade), senso de oportunidade (egoísmo), e, sobretudo, porções generosas de um aventureiro sonhador que acreditava poder chegar onde bem quisesse. O mundo quase nunca recusou as minhas façanhas. Fui longe. Realização plena para todos os itens contidos no meu checklist do que imaginava ser felicidade.

Deus chegou na minha vida com a morte de nossa filha. Ela só queria atravessar uma rua, mas não chegou no outro lado da calçada… Um ônibus interrompeu o trajeto dela e atrasou o de tantos outros que não chegaram, a tempo, no destino previsto. Tudo desmoronou dentro de mim, tão irremediável quanto o peso de ter que se lidar com o nunca mais. Sofrimento passou a ser o que de uma hora para outra ficou suspenso na memória, exigindo movimento quando a inércia e a rigidez se impuseram sem nenhuma possibilidade de permuta. Fui eu quem, no extremo do desamparo, reconheci o corpo inerte da minha filha sobre o metal de uma das mesas onde se dera a necropsia. Deixei ali, junto a ela, qualquer possibilidade de voltar a ser feliz. Saí de lá com a solidão de não saber porque continuar vivendo. Foram poucas as lágrimas que derramei quando a brutalidade extrema da existência me levou para perto de Deus. E eu pedi… Pedi que arrancasse de mim aquela dor corrosiva que somente poderia ser atenuada se uma explicação para aquilo tudo chegasse à minha compreensão. Rezo todos os dias…quem sabe Deus possa, enfim, me ouvir.

– xx –

Uma vida inteira e nunca fui temente à Deus, nunca temi em quem depositava irrestrita confiança. Isso antes da melhor parte de mim morrer com a filha que me foi arrancada, por mais fervorosas as minhas súplicas para que não a levasse de nós. Não acredito mais em Deus! Meu Deus era só bênçãos e gratidão por permitir que a minha família gozasse de saúde e sempre nos dava força para vencer as adversidades, embora elas nunca tivessem passado de pequenos contratempos, sem esforços, facilmente superados. Não mais! Renego Deus com o tamanho incomensurável do meu sofrimento e dos destroços que nem mais posso chamar de família.

Rasguei a Bíblia. Joguei no lixo o terço de Nossa Senhora! Não fiz doação porque não sou pessoa de dar para os outros o que é imprestável para mim. Não fui à missa de sétimo dia que o meu marido insistiu em celebrar. Não tenho como celebrar a minha dor, nem tenho porque visitar a casa de Deus. Não faço visitas a quem deixou de existir, a quem deixei de considerar, a quem não fez jus à minha devoção. Não posso perdoar quem conspirou para me colocar neste desterro onde somente as mágoas prosperam irrigadas pelas minhas lágrimas. Não há atenuantes possíveis frente a tamanha violência. Não há como imaginar cicatrizes se a ferida aberta jamais fechará. Não há recomeços praticáveis quando por definitivo o silêncio e a solidão, impossíveis de serem compartilhados.

– xx –

Anita e Ricardo podem ser vistos, a qualquer hora do dia, sentados na varanda daquela casa triste. Passam o dia de mãos dadas e os olhos marejados. O silêncio é a comunicação que coagula dia a dia, sem reversos. Ricardo espera um comunicado qualquer de Deus. Anita aguarda que o tempo desfira o golpe definitivo.

Apenas trocaram de calçadas.

6 Comentários

  • Ana Cristina Palacky

    Vera Cristina, Muito emocionante sua versão de Deus, da sua procura e do seu desencantamento. Creio que ao narrar a estória de Ricardo e Anita, muito do seu subjetivo em relação à crença em Deus está presente. A mitologia no passado criou, construiu, pintou, modelou deuses e deusas. Gregos e romanos foram prolixos na cosmologia divina. Deuses e deusas bons, boas e ruins, bonitos e feios, sensuais e amargas. Extraordinários/as em suas dilaceradas paixões humanas, incestuosas, plenas de vibrações de ódio, de bravura, e de desejo carnal. Gregos e romanos adoravam seus ídolos de pedra e neles depositavam as virtudes glorificadas da época. O Deus sobre o qual você fala é o deus moderno, invisível, opaco e presente. Deus moderno é sempre representação assexuada de bem, do bom, da felicidade, da esperança, do perdão infinito. Deus domesticado e venerado. Admiro os deuses mitológicos de Atenas e de Roma, Esparta e Cartago, robustos in extremis, vingativos, guerreiros, que inspiravam temor e adoração ao mesmo tempo. Figuras únicas retratadas em mármore, em cobre, em terracota, em painéis, em miniaturas e mais tarde nas pinturas da renascença italiana. Deus colossal guerreiro e mágico. O Deus que conhecemos é sempre o último recurso quando a vida se torna cruel, apavorante, traiçoeira, abrasiva, a morte se aproxima de nós como foi o caso do casal que lhe inspirou, onde encontrei pinceladas fortes de ateismo. Apreciei amiga o Deus, sobre o qual fala, onipresente, perto e distante, afetuoso, cheio de compaixão e com os braços abertos como o nosso carioca Cristo Redentor. O Deus nosso de cada dia é eterno e fluido. Nele há a coragem do homem e a passividade presumida da mulher. Nosso Deus é aquele da consolação, da oração, sempre perdoa e nunca julga. É um deus pai, amante, irmão e filho. Adorável Deus da pax romana. Abs do inverno de Praga. Ana Cristina

  • Renato Soares Menezes

    Excelente texto! Eu diria que, mais do que ser sobre Deus, o mesmo se refere à Fé. Os sentimentos humanos são falíveis e mutáveis: podem nos levar a grandes alturas, até o ponto de ficarmos entusiasmados e esperançosos, como também podem nos levar, em determinados momentos, quando passamos por situações tristes ou no mínimo desagradáveis, a uma descida à descrença, à falta de empolgação, à falta de fé. Para aceitarmos a existência de Deus faz-se necessário que tenhamos a convicção de que nenhum mal procede de Deus ou seja, não podemos ter dúvidas quanto ao Seu caráter. Deus não é inconstante como o ser humano, não há inconstância em seu coração ou em sua forma de agir. Deus não emana bondade e depois emana maldade. Champlin, teólogo cristão norte-americano radicado no Brasil, afirmou: ” Deus desconhece a mínima variação em sua natureza e modo de tratar com os homens. Ele não pode ser a fonte do bem para ser a fonte do mal no instante seguinte”. O que vemos no texto ” Sobre trocar de calçada” é justamente a percepção humana, inconstante, sobre o caráter de Deus: bom, enquanto preenche as nossas expectativas; mau, quando nos deixa de atender. E, assim ficam as perguntas que não querem calar: Anita era mesmo possuidora de fé religiosa? Ricardo era mesmo um ateu convicto? Eles trocam de calçada ou levam a que Deus, na percepção equivocada de ambos, troque de calçada? A fé está presente no coração de algum dos dois, de Anita ou de Ricardo? Ótima reflexão.

  • Diderô Carlos Lopes

    O pano de fundo para todas essas questões colocadas se chama crença que é um atibuto apenas dos sapiens.
    Estudar e compreender os mecanismos das crenças é fundametal no contexto da diversidade das pessoas e opiniões.

  • Mônica Barros Coutinho

    Viver é caminhar, nem sempre em frente, nem sempre na mesma direção… Diante do trágico que é a morte da filha, o casal troca de calçada, mas mantém as mãos dadas na dor também… Fiquei pensando nas calçadas que escolhemos ao longo da vida… O que conseguimos aceitar, o que é intolerável… Como lidamos com os ganhos e as perdas inerentes à vida… Parabéns, Vera! Ótima reflexão!

  • kelly vieira

    Vera, tua sensibilidade me é surpreendente. Os paradoxos que a vida nos apresenta cotidianamente, quase sempre despercebidos, narrados como que cármicos ao conforto da boa-vítima, nestes fragmentos se colocam de forma simples de modo a deixar explicitar: “a vida como ela é”. Não carregada de erotismo, mas de flagelo frente ao imponderável. A fantasia de controle diante do caos, da linearidade dos dias quando nem as horas são compassadas; a proteção e confiança num além-mundo vis-a-vis ao instante que, arrebatadamente, retira-nos o chão e nos leva embora deuses, não restando sequer altares, somente abismos. Deus e nada cruzam as calçadas a depender do que aqui ocorra. O conforto mesmo está em não sermos idênticos, trocarmos de calçadas, e até retornarmos às tantas certas-incertezas que, se não o todo, sustentam parte do edifício que alicerçado pelo verbo: viver. Fico sempre mexida com as propostas tão diversas que você faz questão de apresentar ao mundo. Elas contém sempre uma particularidade: senão dois, ao menos três pontos de vista: o sim, o não e o talvez. Grata!

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