Sentimentos acontecem dos fatos

Assim & Assado

Que coisa… Se a gente não pega esse menino pela mão e não o sai arrastando por aí, é bem capaz dele ficar para sempre parado no mesmo lugar… Sempre foi assim, desde meninote. E sempre teve esses olhos brilhantes, como coisa que a qualquer momento, e sem intervalo, iria aprontar uma estripulia ainda mais perigosa que a anterior. Perspectivas não confirmadas. Cresceu. Já está homem feito, um pouco desfeito, já que não se assenta na vida do jeito que todo mundo enfeitou com as melhores alegrias.

Bastou perguntar duas vezes o que ele queria ser quando crescesse para o assunto não ser mais retomado: desandou a recitar todas as profissões que havia aprendido até então – bombeiro, polícia, músico, motorista de ônibus, astronauta…- Na segunda vez em que a pergunta foi feita, a lista já era maior e a inviabilidade consagrada em definitivo. Não dava nenhuma pista de interesse já que as possibilidades aumentavam à medida que seu vocabulário enriquecia. Se tivesse percebido mais atentamente, teria concluído que aquilo era um sintoma, validado, de que bastava largar da mão dele para que ficasse estancado, sem saber que direção seguir.

É um menino bom. Afetuoso. Tem respeito pelos mais velhos e carinho pelos mais novos. Tem um bom coração, isso eu posso atestar sem a menor dúvida. Mas bom coração não faz a pessoa se realizar socialmente nem individualmente. Ao contrário, bom coração quando exposto na sinceridade dos sentimentos, parece incitar que alguns compareçam para neutralizar o que houver de bom, mesmo que seja muito. Se defende inventando longas histórias quando cobrado por coisas que deixou de fazer. E a ingenuidade é tamanha que acredita estar protegido da verdade – e da suspeição dos outros – fantasiando mirabolantes explicações que poderiam provocar risos se não exasperassem a preocupação dos ouvintes.

Teve apoio para todos os lampejos de interesses que pudessem sugerir algum encaminhamento na vida: começou com o desejo de ser baterista, mas as baquetas nem arranharam a pele dos tambores para enfraquecer o que era vontade; depois cismou que estava acima do peso e deu início aos exercícios físicos, mas todos os apetrechos de ginástica foram parar no armário grande, só dele, fazendo companhia a um sem número de probabilidades de futuro, empoeiradas no esquecimento. Também teve aquela convicção sobre a necessidade de tirar carteira de motorista para qualquer emergência familiar e também para a própria autonomia, pois bem, largou tudo a meio do caminho: está andando a pé, se desviando dos carros.

Mas meu menino é bom. Faz a barba com frequência, mas resiste quanto à sugestão de cortar os cabelos. Tem um olhar doce o meu menino. Tem imaginação fértil demais; perigo mesmo é ele acreditar nas próprias fantasias. Foi assim quando cismou que a Terra era plana. Não houve quem o convencesse do absurdo. Não houve ciência, deboche ou reza que o removesse da crendice. Nem sei se essa fase já foi superada. Não pergunto que é para eu não alimentar esse tantinho de tristeza que isso me causa. Levei esse menino para tomar todas as vacinas que os protocolos médicos determinavam, não é que foi só crescer e poder caminhar com as próprias pernas para um posto de saúde, buscando as necessárias vacinas de adulto, para esse menino espalhar aos quatro ventos que as vacinas são inúteis. Suponho até – imaginativo que só ele – que atribuiu aos fabricantes um complô mundial para exterminar com a raça humana.

Meu menino é bom, só falta crescer o homem que se tornou…. Abrir as asas… Voar…

3 Comentários

  • Ana Cristina Palacky

    Vera Cristina, texto original. Assim & assado é expressão muito usada na Bahia, ou aliás era… Gostei do seu menino de idéias mirabolantes e coraçãoo doce e ingênuo. Como absorve e se alia ao que vem surgindo….. Agradável e recomendada leitura para os nossos tempos incertos de cólera. Abs afetuosos. Ana Cristina

  • Renato Soares Menezes

    Esse jovem, do texto, parece ser um bom caso para um psicólogo, mas vamos tentar entender o que se passa. O próprio texto nos oferece algumas pistas. “Teve apoio para todos os lampejos de interesse…”. Terá sido esse o equívoco: apoio demais, tornando-o inseguro? “Foi assim quando cismou que a terra era plana…”. Terá o jovem se tornado influenciável, por terceiras pessoas? “Mas meu menino é bom”. O jovem que se quer adulto, é tratado diversas vezes ao longo do texto por “menino”: parece que nem a Autora confia em que ele seja um adulto… Não será isso que o faz resistir em deixar a adolescência para trás e ingressar na fase adulta? Ser rebelde, questionar os adultos da família, é uma característica do adolescente que procura se afirmar por meio de atitudes contestatórias.

    Ao longo do texto, percebe-se que o jovem é imaginativo e sonhador. “Sonhe que dá!”, é um bordão de boa sorte e de incentivo, o qual repito aqui, mas acrescento: faça por onde acontecer! Sim, a sorte é importante, mas não vale nada se não corrermos atrás dela, se não batalharmos pelo que queremos, se não nos esforçarmos em atingir um objetivo pré-determinado… De nada adianta sonhar e ficar à janela, como Carolina, que não vê o tempo passar… E o tempo é algo que não se recupera: passou, virou passado. A boa oportunidade não se apresenta duas vezes na vida: é necessário estar atento para quando ela passar e segurá-la, fortemente. De nada adianta sonhar, como Campos Lara, o personagem de O Feijão e o Sonho, de Orígenes Lessa, sempre dividido entre o sonho de se tornar escritor e a realidade da luta pela sobrevivência… Faz-se necessário que cada um agarre, com ambas as mãos, as rédeas de sua própria vida e que a conduza a bom porto, caso contrário ela seguirá como um barco desgovernado, até encalhar ou afundar no meio do Oceano…

    Que as seguintes palavras possam inspirar o jovem: “Cada jornada começa com um único passo. No começo, o seu objetivo pode parecer impossível. As pessoas te dirão: “Você não vai conseguir!” Você pode ouvir isso até mesmo de seus amigos e familiares. Ignore-os, siga em frente! Antes que você se dê conta, aquele único passo se transformou em 10. E então em 1000. E agora o seu objetivo está visível. Vc não é mais forte do que as pessoas que disseram que você não conseguiria. A diferença é esta: você acreditou em você mesmo. As pessoas que conseguem alcançar seus objetivos, conseguem fazer coisas, não é porque elas são mais fortes ou mais espertas. As pessoas que são bem sucedidas frequentemente são aquelas que tentam e aquelas que trabalham duro. Este é o grande segredo.”

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