Sentimentos acontecem dos fatos

Navegar é impreciso

Quando a ideia de casa tentava encontrar em mim algum referencial ficava desorientado. A sensação era de não ter casa, ou melhor, não identificava dentre as residências por onde havia passado aquela onde pudesse descansar confortavelmente a minha existência. Se bem que existir e poder descansar sempre me pareceram de coexistência incompatível. Não é que eu morasse de aluguel ou que morasse em algum quarto, de favor. Não era isso. Era alguma coisa bem sutil. Quando pensava em casa era levado a visualizar um oceano e eu navegando seus mistérios. Sempre me senti acolhido posicionado de frente para o mar. Meu sonho foi viajar naqueles transatlânticos descomunais, com ou sem show do Roberto Carlos, com ou sem as viroses e as bactérias que com frequência interrompem viagem e fazem com que todos caminhem pela prancha, direto para o hospital. Pouco me importava, o que contava mesmo era enxergar o mar e sobre ele, imaginar o barulho daquele monstro, de tão pesado, de tão enorme, singrando as suas águas. Nessas horas um sorriso visitava meu rosto e ficava ali até se dissolver feito fumaça para, então, as questões práticas assumirem o seu lugar.

A ideia de casa, ou melhor, de mar, se tornou urgência recorrente. Talvez porque eu quisesse estar longe, bem longe, onde as praias se derramam. Morava longe. Portanto, querer fugir desta vida era correr com as botas de Sete Léguas para onde as águas salgadas me banhassem. Enquanto isso, ia contando as alegrias e descontando as tristezas, tinha por saldo um ou dois agrados que mantinha num canto do coração que nunca foi sombreado pela melancolia. Acho que a isto chamam fé, mas não tenho certeza. Passei a guardar num pote o pouquinho de dinheiro que me sobrava todo final de mês. O pote tinha nome: Bateau Mouche. Só esperava que não naufragasse antes de ter acumulado o suficiente para chegar na costa do Atlântico e, ao menos, eu poder ver de perto aquelas belezas de transatlânticos ancorados… Por um bom tempo eles só me foram possíveis nos cartazes que a agência de turismo colocava à mostra, por onde eu passava todos os dias a caminho do trabalho. Olhar aquelas imagens na vitrine faziam com que os meus dias tivessem um bom começo. Às vezes, mesmo com esse estímulo o meu dia cismava de se desgarrar do que seria bom… Nessas ocasiões eu me dizia: tudo bem. É como se eu estivesse pagando à vista uma espécie de juros qualquer, pela capacidade de me colocar algum objetivo, que com um pouco de sorte não haveria de se transformar numa ilusão.

Levei três anos até me sentir financeiramente respeitado a ponto de entrar na agência de turismo e saber o preço da passagem de avião (a tal bota de Sete Léguas) com destino à maresia que meu corpo tanto demandava. Uma rota para chegar até aos navios, e neles, a qualquer lugar. Levei mais quatro anos juntando cada tostão para tornar viável o objetivo. Sete anos acompanhando o aumento dos preços. Fazia uns cálculos, que não conseguiria reproduzir aqui, tendo por métrica a inflação que vez por outra me assustava quando percorria as gôndolas do mercado. Passei a ser recebido com sorrisos pela Cíntia, que assim que me via entrar na agência de turismo, pegava meu dossiê e me informava as opções menos onerosas para atingir o meu sonho. Sonhos cismam de custar muito caro. Salvo os da padaria, bem entendido.

Lá no mercado onde eu trabalhava de empacotador, e depois de repositor de mercadorias, todos gostavam muito de mim: não me metia em confusão; apesar de me convidarem, nunca fui beber cerveja ou pinga depois do expediente; não reclamava do trabalho; atendia a todos com educação, embora eu soubesse da minha invisibilidade para os que frequentavam o local, por mais que meus préstimos fossem acompanhados de gentilezas sem mesquinharias; não faltava nem chegava atrasado. Era o típico funcionário que todos os patrões gostam de explorar com a desculpa de estarem ajudando a ganhar experiência. Eu não me importava em ficar até mais tarde sem ganhar hora extra, afinal não tinha nenhum compromisso depois do expediente, nem mesmo podia admirar as fotografias da agência de turismo que já estava fechada quando voltava para casa. Foram anos carregando dias metodicamente previsíveis, com exceção das alternâncias de sol para chuva, de frio para quente, mas que não dependiam de mim, assim como não era da minha responsabilidade os contratempos que volta e meia acontecem no dia a dia de um mercado. Depois de sete anos engordando o Bateau Mouche, ao custo de perder alguns quilos por me limitar ao que de extremamente básico me mantivesse vivo e sadio, entrei determinado, cheio de mim mesmo, na agência de turismo. Cíntia entendeu, só de me ver entrando, que aquele era o dia, finalmente.

Passagem comprada e negociada a minha demissão do mercado com direito a sacar o Fundo de Garantia. Tudo organizado e com condições para algumas extravagâncias, mesmo que a elas nunca estivesse acostumado. Foi uma semana de muita ansiedade esperando a partida.

Uma garoa, daquelas bem fininha que quase pedem licença para molhar você todo, me acompanhou até o aeroporto. Muita gente, muita confusão, longos intervalos de espera para que todos os procedimentos fossem cumpridos e eu, coração aos pulos, me instalasse numa poltrona, ao lado da janela como a Cíntia havia prometido.

Da minha janela, me entortava ao máximo que o cinto de segurança permitia, só para ver, no início, a quantidade de rios que cortavam a geografia. Muito lindo, aqui e ali um aglomerado de casas. De cidade em cidade, de rios a mais rios, minha boca aberta era por onde me invadia, gostoso, tanto deslumbramento. As pessoas dentro do avião não se falavam, mal se olhavam. Só tinham olhos para os tripulantes, como se a cada olhar pedissem informações sobre quanto tempo ainda teriam que ficar ali, imóveis, amarrados em suas poltronas. Eu não tinha pressa. Poderia demorar o voo quanto tempo fosse, eu não me cansava de olhar o mapa-múndi lá embaixo, entrecortado por nuvens que se faziam de túneis à passagem do avião.

E numa curva qualquer, sem nenhum aviso, eu enxerguei o mar. Aquele tapete escuro do sem fim, estendido até onde o meu olhar não alcançava, salpicado de pontos brancos que pareciam dançar, acompanhando a alegria que meu corpo, por inteiro, não se recusava a sentir. Era o mar! Eu flutuava sobre ele… eu flutuava sobre ele…

Até que, de repente, um estrondo insuportável…

2 Comentários

  • Renato Soares Menezes

    Sim, sentimo-nos surpresos e até mesmo chocados com o desfecho do conto! Que nos mantém em suspense até o final, na expectativa de que o protagonista do enredo realizasse, enfim, o seu sonho… Contudo, o sonho não se realiza e aí paramos para pensar: talvez tenha sido melhor assim, desaparecer, feliz, acreditando que o seu desejo maior iria acontecer… Porque teria sido melhor assim? Para evitar uma possível, quase certa, frustração! Afinal, viajar de cruzeiro não é exatamente o que imaginamos que seja… Vejamos (falo por mim): o mar me fascina, mas visto da praia ou de uma janela à beira-mar  –  prefiro manter os pés bem firmes em terra seca, do que embarcar em um navio que, de um momento para outro, pode defrontar-se com ondas gigantescas ou com outras coisas monstruosas quaisquer (lembra do Titanic?); e a ideia de me sentir confinado em um quartinho, pouco iluminado, vendo o mundo passar por uma escotilha, já é desanimador – sim, há as caríssimas suítes, mas são poucas, os quartos costumam ser minúsculos e há ainda aqueles, internos, que nem pela escotilha se vê… claustrofobia, na certa; e há o embarque no navio – é uma verdadeira maratona: há que se tomar um avião até o porto paulista, carioca, ou outro: percorrer uma estrada de mais de uma hora até o porto de Santos (no caso de quem estiver em São Paulo); encarar uma enorme fila para fazer o check-in; tomar um ônibus que circula pelo porto até chegar ao navio e, finalmente, a escada e/ou rampa de embarque… cruzes!; e a comida a bordo – difícil manter o mesmo padrão por dias seguidos, acaba-se enjoando da mesma, isso sem contar com as filas para se atingir os pratos (lembre-se, há uma multidão no cruzeiro!); e por falar em enjoar, há os terríveis enjoos provocados pelos balanços do mar…; vamos curtir a piscina, sossegados? –  pura ilusão: lotada, como se fosse a praia de Ramos em pleno verão!; é chegada a hora do banho naquele banheiro de avião: é necessário se “encaixar” naquele espaço de meio metro quadrado para conseguir abrir a torneira e, depois, “bancar” o contorcionista para pegar o sabonete ou o shampoo – outra tortura!; e quando há as paradas nos portos ao longo do percurso, aquelas são curtas, não dá tempo para muita coisa, a pessoa tem que fazer um passeio correndo e olhe lá – e isso quando o navio encontra espaço para atracar, caso contrário é necessário sair do navio de lancha, com  risco de se cair ao mar e, na certeza de que, como as lanchas são pequenas, vai levar algum “tempinho” até chegar a sua vez… Nem me alongo mais: cruzeiros jamais! Pelos motivos apontados, acho que foi o melhor final para o protagonista do conto! Ao invés de ser um sonho, um passeio desses me parece ser um pesadelo!

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