Sentimentos acontecem dos fatos

Inocência

Augusto Ribeiro dos Santos Maciel. Um nome com sonoridade tão nobre, mas todos insistiam em chamá-lo por Guto. Era um pedreiro cujas habilidades jamais poderiam ser desqualificadas, mesmo que ninguém o tivesse visto trabalhar: sua qualidade profissional podia ser atestada só de vê-lo fazendo as refeições.

Eu ficava ansiosa para que a hora do almoço chegasse logo. Meu pai havia contratado o pedreiro para reformar o banheiro social: trocar os azulejos, substituir o piso gasto, modernizar as louças… Quando chegava a hora do almoço eu ficava observando, com cuidado para não ser descoberta, a destreza com que Augusto Ribeiro dos Santos Maciel interagia com o prato de comida: movimentava o garfo com os mesmos movimentos precisos e concentrados aos dedicados a dar ao cimento consistência exata para a aplicação. Era lindo ver o balé da mão segurando o garfo e inscrevendo no ar giros suaves que deviam acompanhar uma música que somente ele era capaz de ouvir. E assim a comida ia sendo misturada no prato, com a suavidade de um artista, antes de alcançar a boca.

Além de espiar Augusto Ribeiro dos Santos Maciel durante as refeições, eu também gostava de puxar conversa com ele, mesmo quando a minha mãe me dizia para afastar os meus oito anos das tarefas que exigiam a concentração dos adultos. Minha mãe tinha um jeito muito particular de me botar distante das situações que eu insistia em ocupar, sem permissão.  Conhecia minha mãe o suficiente para saber quando ela me dirigia aquele olhar, e eu adivinhava que ela fazia o exercício de contar todas as camadas de paciência disponíveis para nunca gritar, beliscar, ou me bater. Nunca meus pais me bateram. Eles gostavam mesmo de conversar, de me convencer das coisas que eu voluntariamente rejeitava. Aprendi a esticar os nervos dos meus pais até onde nenhum estrago me atingisse. Mas não escapei de alguns beliscões até alcançar a dosagem certa de até onde poderia ir sem que houvesse hematomas ou culpas. Nenhum trauma nesse sentido. Eu aprendi a hora certinha de quando parar, de deixar de insistir. E os meus sinais eram menos evidentes do que aquela luz vermelha suspensa no ar que obrigava meu pai a parar com alguma frequência nas vezes em que saíamos de carro. Deduzi que eu era mais inteligente que o meu pai, por não precisar de nenhuma luz vermelha e perceber com mais sutileza os sinais. Por outro lado, achava impossível ser mais inteligente do que ele: por ser bem maior do que eu, ele tinha mais espaço para a inteligência se espalhar nele.

– Augusto Ribeiro dos Santos Maciel, você constrói uma casa para mim?

Ele riu alto que quase levei um susto. Mas disfarcei sem entender o engraçado do pedido.

– Menina Júlia se você me chamar só de Guto as coisas acontecem mais depressa. Posso saber por que você quer uma casa? A sua casa é tão bonita e você tem até um quarto só para você!

– É que eu quero experimentar ser um adulto. Se eu não gostar você pode desfazer a casa e não se fala mais nisso.

Outra gargalhada.

– Não tenha pressa em crescer não. Vai acontecer, te garanto. E se você não tiver pressa talvez chegue até mais depressa do que imagina.

– É… talvez você tenha razão. Você me construir uma casa para eu experimentar ser adulta é muita coisa para um experimento. Talvez eu deva ir com mais calma, tipo trocar minha lancheira cheia de borboletas coloridas, por um saco transparente, com fecho, para guardar o meu lanche embrulhado em papel alumínio. Acho isso muito adulto e bem mais fácil do que você construir uma casa para eu viver. E mais rápido também…

– Sim! E muito, muito mais econômico Julinha…

Mais uma gargalhada que de tão alta, minha mãe lembrou que tinha filha e que devia estar aprontando alguma:

– Júlia!!!!

E eu saí correndo sem mesmo dizer até logo para o Augusto Ribeiro dos Santos Maciel. Aquele tom de voz da minha mãe era um alerta de que ela devia estar contrariada. Contrariedade deveria ser o meu apelido…

Quando a obra terminou senti saudades do Augusto Ribeiro dos Santos Maciel. Não tinha mais com quem conversar, nem me encantar com o balé que as suas mãos riscavam o ar em agradecimento ao alimento recebido. Minha mãe se deu conta de que eu andava amuada e deve ter contado para o meu pai: chegou em casa um dia dizendo que logo, logo, o Guto voltaria para reformar o outro banheiro da casa, ou talvez a cozinha. Acho que meu pai e minha mão brincavam de telefone-sem-fio, tendo a mim como assunto. Meu pai pouco ficava em casa para saber das variações do meu humor, ou de qualquer outra coisa que me ocorresse longe de sua presença. Ele era muito ocupado. Supervisionava prédios que a sua engenharia colocava no alto. Augusto Ribeiro dos Santos Maciel era seu funcionário preferido desde muito tempo e, de todos, me parecia o mais competente.

Um dia perguntei para o meu pai porque ele, sendo engenheiro, não reformava ele mesmo os banheiros de nossa casa. No fundo eu queria mesmo era uma explicação por que o Augusto Ribeiro dos Santos Maciel morava numa favela no subúrbio, nunca andava de terno, levava sempre consigo uma marmita de alumínio, e pegava trem antes de subir no ônibus para um dia de trabalho. Augusto Ribeiro dos Santos Maciel deveria ser bem mais rico que meu pai, e, no entanto, nem mesmo um carro velho o vi conduzindo. Meu pai chamava o Guto para fazer o que ele não sabia e parecia que a riqueza só soprava para o lado do meu pai. Meu pai me deu uma longa resposta que só entendi pela metade, a outra metade talvez exigisse de mim mais anos de crescimento.

O fato é que todas as vezes que eu entrava no banheiro reformado – por sorte era um banheiro que eu pouco usava – eu me lembrava das minhas conversas com o Augusto Ribeiro dos Santos Maciel. Demorou muitos anos para que ele voltasse para reformar o segundo banheiro. Quando ele voltou, já estava bem mais velho e eu adulta por inteiro. Não tinha mais perguntas porque não tinha mais interesse grande por ele. Até custei a reconhece-lo no seu primeiro dia de trabalho. Cumprimentava com formalidade e demorei muito para me lembrar que se chamava Guto. Não tinha tempo, nem fazia sentido, eu observá-lo destampando a marmita no almoço.

Crescer é descascar a fruta da inocência!!

4 Comentários

  • Ana Cristina Palacky

    Vera Cristina. Bom dia, do inverno do norte sem cor e sem flor. Li o seu último conto. Inocência. Memórias de menina curiosa que queria entender o mundo de Guto, o pedreiro. Julia e Guto são arquétipos bem definidos na estória. Os tipos sociais são clássicos no quadro urbano e social das cidades do Brasil. As linhas de classe estão ali delineadas com candura e precisão. Tudo muito perto e longe ao mesmo tempo. O pedreiro convive ao consertar o banheiro mas não faz parte do mundo de Julia. A mãe se preocuoa com a curiosidade e fascínio da menina. A favela é o mundo de Guto. As fronteiras sociais entre pedreiro e engenheiro têm que ser mantidas. Os mundos se cruzam apenas. Há pontes e riachos. Julia ao crescer já não se interessa com o ser adulto, ela também vai se tornando uma moça e as cercas dos nós e eles já não confundem. A figura da mãe cuidadosa já não aparece. Julia já se situa na sua moldura. Parabéns Vera Cristina. Abraços afetuosos, Ana Cristina

  • Mônica Barros Coutinho

    Essa menina Júlia é muito especial! Como se diz, a beleza está nos olhos de quem vê! E ela, como a maioria das crianças, percebe o mundo com curiosidade e fascinação, vendo com o coração, sem preconceito! Mas o tempo passa e encontramos Júlia em outro momento, em que se perdeu essa originalidade, essa inocência…

  • Renato Soares Menezes

    Ao mesmo tempo singelo e rico esse novo texto da Autora! Daria para discorrer sobre vários temas que dele podemos extrair, como a injustiça social ou a educação familiar. Mas, para acompanhar o título do conto, vou me deter na questão do amadurecimento e da perda da inocência. Esta é perdida durante a convivência com a vida. E, hoje em dia, parece não ser bom que isso leve muito tempo para acontecer, caso contrário corre-se o risco de vermos jovens se deixando levar na conversa de gente mal-intencionada; jovens engravidando sem ter condições econômicas e de amadurecimento para serem mães e pais; jovens se deixando influenciar por teorias no mínimo exóticas como a que diz que o mundo é plano… Há quem diga, contudo, que, enquanto adultos conscientes, o nosso trabalho deveria ser o de resgatar a inocência perdida, a espontaneidade e a pureza da criança em nós, pois assim poderemos resgatar também a alegria e a leveza de viver. Parece ser exatamente isso que entoam os versos da bela e alegre canção de Gonzaguinha: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz/Cantar e cantar e cantar/A beleza de ser um eterno aprendiz…”. Por outro lado, há também quem diga, como o escritor Fitzgerald: “Eu não quero repetir a minha inocência. Eu quero o prazer de perdê-la novamente”. Então como ficamos, entre esses extremos? Optemos pelo equilíbrio. Podemos perceber que, com o passar do tempo, a personagem Júlia perdeu a inocência, sim, mas parece ter perdido mais do que isso: perdeu a candura, a capacidade de observar o outro, o poder da observação, a sensibilidade. Perder a inocência é inevitável – e talvez mesmo necessário; mas devemos procurar conservar aqueles outros sentimentos…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.