Sentimentos acontecem dos fatos

Coisas Miudinhas

Fica muito difícil qualquer tipo de abstração quando o estômago é desocupado às carreiras, dando mais espaço para que a angústia se instale. Durante muito tempo foi essa a reação quando o inesperado dava um bote na minha vida. Depois, as variações de pressão que não estavam nem aí para os remédios que se esforçavam, inúteis, para que, ao menos, a pressão fosse a mais equilibrada de nós duas. É um sobe e desce que só a tontura para tentar explicar em detalhes. Mas se aprende a lidar com tudo, menos com os sustos dessa vida.

E é tamanha a montoeira de sustos que deixei de ter hierarquia com relação aos meus sentimentos: quando não é um susto de alegria, um susto de entristecer, ou susto de me deixar pasma, também susto de decepção, raros mesmos são os sustos de sustos, daquelas brincadeiras que faz o coração acelerar sem nenhum propósito, e ainda ficam rindo da cara da gente. Coisa de amigo bobo que todo mundo tem. Mas campeã mesmo em dar susto em todo mundo, e que não é amiga de ninguém, é a Morte. Essa é danada de sabida em assustar. Assusta até mesmo aqueles que pressentem a sua proximidade. Não adianta, ela assusta de todas as maneiras, sem fazer escolhas. Salvo aqueles bebês que nascem e morrem logo em seguida: descobrem apressados em sabedoria que viver é mesmo coisa de morrer.  Trem mais triste de isso acontecer. Susto bom também aparece, com menos frequência. Como naquela vez em que eu ganhei um concurso de poesia, e foi um susto de mil fogos de artifício para a noite que se fez colorida na minha surpresa.

Enquanto a pressão sobe e desce feito uma adolescente descontrolada, desavisada de que a adolescência, há muito tempo, se despregou da minha biografia, a vida vai me levando num sobe e desce parecido, desgovernada nos acontecimentos. Agora, por exemplo, é tempo de recolher as mangas do pé ou, com uma certa contrariedade, recolher as desperdiçadas que caíram estateladas no chão. Nem preciso de calendário para saber em que mês estamos. Basta olhar as frutas para identificar as estações. Na falta de alguém para comentar o fato, eu fico conversando com as flores, com as frutas, ralho com a grama que cresce espevitada demais todas as vezes que a chuva cai e ela se sente abraçada, crescendo a olhos vistos e a jardineiros pagos para conter tanta animação. Também falo com os bichos que me parecem de melhor entendimento que os vegetais. Os vizinhos só de vez em quando, porque estão sempre muito atarefados com os seus filhos, seus carros, seus quarenta anos e pouco. Gosto mesmo é de cumprimentar o atendente da padaria, o pipoqueiro da esquina, o vigia do quarteirão e o lixeiro apressado no cumprimento dos horários de bairro em bairro. Tem o motorista da van, mas este não é lá muito simpático, nem mesmo o nome eu guardei, gosta mais é de dar atenção para as meninas novinhas, vai logo abrindo um sorriso, mostrando dentes muito amarelos, que imagino tenha por propósito, mesmo que equivocado, de seduzir. Ganharia muito mais se soubesse distribuir afabilidade com todos. Mas enfim, tem gente de tudo que é jeito.

Bom mesmo é quando o corpo se esquece de doer me deixando mais animadinha.  É só o joelho deixar de me fazer gemer para logo a minha postura se aprumar e vir aquela vontade de ir lá fora ver o mundo, as modas, ouvir as conversar dos outros, tomar cafezinho em pé, sentar para tomar cafezinho, olhar os enfeites, estranhar a moda, os cortes de cabelo que a juventude inventa pensando que são diferentes, mas por mais que se empenhem, juventude é tudo a mesma coisa. Passear no Shopping só mesmo quando a dor se finge de morta, eu me remoço, e vou dirigindo apesar das ladeiras por onde anda a minha desvairada pressão. É gente que não acaba mais, em todas as formas de se ser gente. Tem os educados, os que dão passagem para os idosos, os afoitos que passam como coisa que vão me derrubar – ai meu Deus -, os tristes de olhar perdido nas vitrines, os sozinhos, os acompanhados, as moças que discutem um relacionamento amoroso na mesa ao meu lado, os preços altos, as liquidações falsas, a vida sempre acelerada num ritmo que não é mais o meu. E volto para casa cansada, muito mais feliz do que a manifestação exagerada dos cachorros me vendo estacionar o carro. Quando a minha pressão não quis mais brincar de gangorra e caminhou, resoluta, na direção de uma montanha-russa, eu nunca mais dirigi. Passei a olhar pela janela dos ônibus e pensei que deveria ter feito essa substituição bem antes.

Outro dia cismei que era sexta-feira. Me perguntei que razão haveria para tanto silêncio na rua. Os operários não estavam trabalhando na casa enorme que estão construindo quase em frente. Vai ver que o dinheiro acabou. Eu falei para mim mesma que construir casa daquele tamanho todo não ia dar certo. Demorei muitas horas até atinar que não era sexta-feira, e sim sábado. Sábado é descanso quase que geral no planeta. Daí o silêncio. Daí os ruídos acordando tarde, sem hora de ir para o trabalho. Todos os sons possíveis que o descanso emite e que nem sempre nos damos conta. Sábado é barulho de piscina, risada de criança, dia de visitas, forno ligado, café coado mais de uma vez no dia, churrasqueira cheirando. E se chove e faz frio, aí que o silêncio não acorda mesmo. Não há quem o arranque de debaixo das cobertas!

Quebrei meus óculos. E foi muito chato sair vivendo uma meia-cega, fazendo uma cara muito séria, ressaltando ainda mais o excesso de rugas, tentando fixar os olhos no embaçado que é o mundo sem óculos. Tive que ir a pé até a clínica porque nem com óculos dá para identificar os letreiros dos ônibus que por aqui todos têm a mesma cor. É um monopólio. Coisa errada. Mal feito de políticos. Tive que esperar mais de quatro dias para ter óculos novos e recuperar a nitidez do mundo, se bem que para muitos aspectos melhor seria se tivesse permanecido naquela opacidade. Mas é perigoso, portanto, é melhor ter nitidez para as coisas, mesmo sendo coisas que não se queira conhecer em detalhes. Ter óculos me fez retornar às leituras. Que de todos os meus vícios, ler é o mais dignificante de todos. Outros são só divertidos, mas podem até matar.

Tenho esse caderninho aqui onde vou anotando as coisas miudinhas que acontecem na minha vida. Gosto de esperar passar alguns anos para reler tantas coisas miudinhas, que passa ano e chega ano continuam miudinhas. É que a minha vida também é miudinha. Assim, tudo certo.

Acho que vou começar a inventar coisas. Deve ser engraçado imaginar coisas que não sejam miudinhas…, mas aí eu troco de nome que é para ninguém me chamar de mentirosa.

3 Comentários

  • Tania

    Tb gosto de botar olhos em coisas miudinhas, quase chego a procurar por elas nas ruas, em casa, nas janelas. Coisa boa de acompanhar.

  • Mônica Barros Coutinho

    Minha vida também é feita de coisas miudinhas, que muito me alegram… Ou me preocupam e muito me ocupam!… Obrigada, Vera, pelo texto tão encantador, em que vou me identificando a cada passo!

  • Renato Soares Menezes

    Acredito que a vida de todo mundo é composta de coisas miudinhas, se entendermos por “coisas miudinhas”, as ações rotineiras do nosso dia a dia. Contudo, não acredito que a vida de alguém possa ser constituída apenas por “coisas miudinhas”, a não ser que, por grandes coisas que ocorrem na vida de todos, os grandes acontecimentos, sejam aqueles aos quais a Autora se refere como sendo “sustos”. Afinal, por exemplo, ser aprovado no vestibular e ingressar na Universidade, não pode ser considerado uma “coisa miudinha”. Nem o casamento; nem o nascimento dos filhos – ou dos sobrinhos; nem a obtenção do primeiro emprego; o primeiro carro; uma promoção no trabalho… Também não podem ser vistos como “coisas miudinhas”, o falecimento de alguém a quem amamos, um filho, uma esposa, um amigo; uma separação, um casamento desfeito; uma demissão do emprego… São coisas grandes, que mexem, e muito, com a vida das pessoas, alteram-na, mesmo que sejam pelo lado negativo – mas que podem até terem consequências positivas! Enfim, a minha vida, como a de todo mundo, é composta por “coisas miudinhas”, mas também, inegavelmente, de “coisas grandes”! Ainda bem!

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