Sentimentos acontecem dos fatos

Coisa Nossa

“Eu moro no céu”, definiu um jornalista tão apaixonado por Brasília quanto eu. Isto porque essa cidade faz com que o nosso olhar, onde quer que estejamos, sempre procure nos oferecer uma nesga de céu para que não esqueçamos nunca que o nosso horizonte é expansível.

Essa intimidade com o céu, nem sempre é algo confortável para as pessoas. Enquanto algumas se sentem plenas interagindo com tanto espaço, outras se sentem oprimidas com tanta liberdade visual. Desde sempre me apaixonei pela amplitude. Quando bem menos avançada na idade, meu prazer era andar pela cidade até cobrir meus sapatos da terra vermelha que gruda, feito tatuagem, no coração de quem ama este quadradinho de cerrado. O fato é que esse diferencial nos permite uma visão igualmente distinta do mundo que nos rodeia: quase uma possibilidade de alcançar os 360o no voltear libertário de nós mesmos. Talvez essa profusão de céu nos tenha habituado a uma percepção acima da média sobre todos os acontecimentos que nos circundam. O que não impede os atropelamentos, os furtos, e tantas outras ocorrências que aguardam, pacientemente, a nossa desatenção.

Outro dia eu fui a um supermercado e me detive numa cena discreta que, não fosse a prática constante em querer capturar todos os movimentos disponíveis ao meu olhar, eu nem teria me dado conta. Na fila, aguardando a minha vez de pagar os poucos itens adquiridos, observava os que estavam na minha frente, inclusive atenta ao desembaraço possível das demais filas. A primeira evidência foi constatar que não importava a fila, não iria ser longa a espera porque as compras de quase todos ficaram reduzidas ao extremamente necessário, graças à inflação galopante que expande a pobreza, que por sua vez explode em violência pelo desespero de se chegar ao final do mês sem ter o que colocar à mesa da família. Era um supermercado bem popular, que prioriza o preço à qualidade dos produtos oferecidos. E assim a gente descobre marcas até então desconhecidas, cuja propensão a não serem saudáveis se reflete no baixo custo disponível ao consumo. Mas lá estava ele, na mesma fila onde eu aguardava a vez. Era um homem relativamente novo, acompanhado de uma mulher que julguei tratar-se da esposa, ou uma parente próxima – a indiferença entre duas pessoas que compartilham uma mesma atividade reflete familiaridade de longa data.

O inusitado foi o espetáculo exibicionista do homem com relação a um dos itens que passaria pelo caixa: uma bandeja de carne, cortada em bifes. Aquela bandeja passeou em todas as direções. O dono da bandeja até deu um passo atrás para levantar e abaixar o produto como quem exibe um troféu à plateia. Meu primeiro impulso foi rir da cena, mas logo me contive concordando que hoje em dia levar um meio quilo qualquer de carne para casa, que provavelmente só daria para uma única refeição do casal, é sim razão para ser reconhecido como um vitorioso e motivo de inveja de uma grande parte da população. Sem dúvida um troféu que merecia ser observado por todos, pois a possibilidade de haver uma nova conquista com o mesmo êxito poderia não vir a se repetir apesar dos esforços e sacrifícios a serem aplicados para tal finalidade. Depois de um tempo, com um sorriso poderoso, o homem permitiu que a bandeja de carne fosse submetida ao infravermelho da caixa registradora.

Eu olhei as minhas compras básicas: nenhuma variante de carne. Foi uma opção: o custo da carne foi desviado para abastecer o carro. Vou me lembrar de manter a mesma postura vitoriosa do homem com seus bifes quando eu for ao posto de gasolina…, mas a lista das impossibilidades só aumenta: a energia elétrica, o gás, o feijão, o arroz, o açúcar…. Viver é cada vez mais um luxo…

“Eu moro no céu” … E essa majestade toda de ter o céu emoldurando o transcurso da minha vida, começa a me angustiar: pelo andar da carruagem é bem capaz da alegria se tornar uma grande infelicidade. Não devo desprezar a ameaça de vir a “morar à céu aberto” como acontece em números desproporcionais com famílias que se deslocam para os grandes descampados da cidade, em barracos cobertos de plástico que não suportam o sol, o vento, a chuva… muito menos essa inflação.

Essa cidade me ensinou a olhar até mesmo o que eu nunca gostaria de testemunhar.

4 Comentários

  • Tania

    Tá osso, amiga. Muita massagem no peito buscando desatar um pouco o nó dos apertos e, principalmente, da desigualdade. Bj

  • Mônica Barros Coutinho

    É verdade… Sinto uma tristeza enorme ao ver cada vez aumentando mais a população de rua, os meninos pedindo dinheiro, pelas ruas próximas, e por esse Brasil afora, como as fotos da fila do osso… Para comprar … E uma percepção que esse aumento da desigualdade se fez por uma escolha política. A precarização do trabalho, da saúde, da própria vida …

  • Ana Cristina Palacky

    Vera Cristina. Acabo de ler o seu precioso e momentoso artigo.Uma elegia ao céu azul anil do planalto e a desigualdade que separa e divide boa parte da sua população.Brasília é uma cidade de duros constrastes. De um lado os marajás, as mordomias, as carruagens douradas, as mansões inspiradas em Beverley Hills a enfeitarem ou a enfeiarem o Lago. Brasília foi concebida e traçada para ser uma cidade socialista, cheia de parques, verde e panelakos, como se vê nas cidades das ex cortina de ferro. Vingaram apenas as asas de um arrojado voo arquitetônico. A inspiração vermelha se diluiu nos avanços militares de 1964 e a retração das ideias igualitárias que se perderam nos gramados das Asas Norte e Sul e se esconderam no Lago. Brasília é uma paródia ingrata e nostálgica. Onde estão os candangos e os pobres que se refugiam acanhados nos entornos da cidade de terra vermelha, pergunto? Brasília é uma miragem do que poderia ter sido e não foi. O artigo trata do encolhimento econômico, social e político das visões e dos traçados de Niemayer e de Lucio Costa. Brasília se enriquece e se empobrece, como Vera Cristina observa com certa ironia e amargura nas filas de um supermercado de descontos. Brasília é o centro político dos nossos magnatas que se encastelam e dos pobres que se auto destroem em ciclos perversos de violência e passividade. Cidade dos deslocados, dos esquecidos, dos carroceiros, dos catadores de lixo, dos salários opulentos e miseráveis pagos pelo mesmo governo. Brasília é uma miragem da opulência pública envergonhada e da miséria dilacerada em contínua expansão. Parabéns amiga Vera Cristina, Valeu!!!!

  • renato menezes

    Sim, é coisa nossa esse céu luminoso de Brasília!! Quem o conhece não o esquece jamais: um azul intenso, uma luminosidade intensa, um horizonte a se perder de vista! E, à noite, as estrelas e as constelações possíveis, podem ser observadas com nitidez. Um espetáculo único, belíssimo.
    Mas a inflação não é coisa somente nossa, é consequência de uma crise econômico-financeira mundial, uma estagflação agravada pela guerra provocada pela Rússia contra a Ucrânia. A nossa parte, nessa situação, se origina no descalabro, na roubalheira, igualmente intensa, dos anos anteriores ao atual governo, algo difícil de se consertar, infelizmente.
    Sobre a desigualdade social, também não é coisa nossa. Existe na maior parte dos países do Globo, mesmo nos ditos socialistas ou comunistas, nestes de forma até mais grave.

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