Sentimentos acontecem dos fatos

Sobre o Sacrifício de Não Enlouquecer

 essencia

Era sempre assim: o final da tarde chegava e crescia nela a sensação de que o dia queria de alguma forma desvencilhar-se dela. E para fazer de conta que isso não a afetava, sempre encontrava uma motivação para sair de casa e assistir o pôr do sol. Assim, publicamente, ela compartilhava a supresa de ter sido ela a se desvecilhar de mais um dia. O fato é que o primeiro movimento era se sentir desconfortável com a pouca humildade em se julgar vitoriosa frente a lenta morte do dia. O segundo movimento acontecia no amanhecer, ao se dar conta que mesmo tendo sida ela a sobreviver, levava consigo todas as consequências dos atos praticados no dia morto ao pôr do sol. E o ciclo vicioso se repetia sem trégua, cabendo a ela acumular as heranças de calendários….

Seu desejo secreto era acordar e fazer de cada dia uma história com início e fim num intervalo único de 24hs. Viver consistiria então na expressão cabível de um único dia, sem possibilidade de prorrogação nem agendamentos futuros. Não traria nenhuma pendência da véspera, nem levaria  nenhuma questão a ser resolvida posteriormente. A vida inteira, início e fim, cabível em um único dia. E ela sorria com esta hipótese. Para este exercício ela escolheria um nome diferente a cada manhã e atravessaria toda a escassez de memória e de perspectiva com o frescor, apenas com o frescor, da horas derramadas na ampulheta da vida.

Esta situação, ela tinha plena convicção, deveria ter o marco histórico dos cinquentas anos. Assim, qualquer pessoa ao completar cinquenta anos deixaria de empilhar as datas, de acumular registros sob a alegação da vida ser um grande aprendizado, de buscar entendimentos para todos os acontecimentos, de cultivar amigos e desafetos… Ganharia a premiação do enorme sacríficio de não ter enlouquecido: a leveza do desapego e a ruptura com relação à opressora noção de que a história de vida é uma sucessão de elementos fortemente encadeados sequencialmente. Ao completar cinquenta anos a vida passaria a caber na realização de um único dia. E para que mais?

Ela já passara dos cinquentas anos e seus filhos, seus amantes, seus amigos, seus desafetos, seus compromissos, seus conhecidos, seu correio, ainda não tinham entendido que ela não fazia mais parte daquele contexto a que se habituaram a tê-la. Ela agora era livre e queria intensamente se bastar em um único dia. Olhava seus filhos concetrada na possibilidade de não reconhecê-los. E por alguns minutos conseguia, de fato, não reconhecê-los e sentia um enorme prazer porque não reconhecer era dar ao outro a possibilidade plena de ser para além do seu julgamento. Reivindicava liberdade ao mesmo tempo que a concedia. Era justo, era justo.

Pensando assim sentou no banco da praça. O céu estava de um azul tão puro e ela sofria com o fato de que seria possível se lembrar daquele azul quando acordasse no dia seguinte. Olhou as crianças que brincavam dentro de um sentido fácil de felicidade. Chamou o sorveteiro e pediu um picolé de chocolate. Não resistiu e perguntou: “O senhor poderia me informar como é o gosto do chocolate?” O sorveteiro a olhou desconfiado preferindo supor que simplesmente não havia escutado claramente a pergunta. Ela desviou o olhar e se lembrou que alguém havia dito, bem antes dos seus cinquenta anos, que chocolate é pura metafísica….

Voltou para casa somente depois do cortejo ao pôr do sol. Definitivamente, ser livre é uma grande dificuldade…..

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