Sentimentos acontecem dos fatos

Minhas condições de ressurreição – ou – Meus adoráveis assassinos

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Ela ficou alguns minutos medindo o brilho da arma que ele apontava na sua direção. O que mais lhe chamou atenção foi  a largura do cano por onde a bala sairia. Achou estranho que dimensões tão estreitas fossem capazes de lhe tirar a vida. Assim, na velocidade de  segundos com que o gatilho pode ser acionado, sua história terminaria com as reticências que sempre absolvem o improvável…

Queria dizer àquele homem que sua natureza se habituara a ser frequentemente assassinada por gestos mais delicados, atitudes mais gentis, palavras bem educadas e comportamentos deliberadamente embrulhados no roxo papel de sêda da elegância. Crimes que não exigiram de ninguém lavar as mãos do seu sangue e oferecia-lhes o esquecimento só para garantir uma impunidade certificada. Não precisava portanto que ele tremesse a mão que empunhava a arma – mesmo porque o tiro poderia não ser certeiro  naquela circunstância – nem que o medo dilatasse de tal forma as pupilas que a encaravam.  Ser morta era tão fácil e que de há muito já se acostumara que quase riu percebendo as diferenças:  ela trazia o hábito de morrer frequentemente e ele a inexperiência de matador. Pensou que talvez não fosse prudente orientá-lo sobre estratégias mais eficazes para a perfeição do crime desejado. Deixaria que a vida lhe ensinasse os caminhos da dissimulação e as opções que lhe fossem convenientes. Não tinha muita habilidade para a função de instrutora, sua destreza foi desenvolvida para fazer de  esquecimentos processos fáceis.

Queria dizer para aquele homem que ela há muito deixara de se oferecer à esperança. Fizera da verdade a sua escolha. Portanto, não tinha outra alternativa além do perdão. Era o seu perdão, assim, a maior crueldade que conseguira alcançar . E silenciosamente , na verdade escolhida, seu perdão era o tácito oferecimento frente ao desejo que ele tinha de matá-la. Mas havia um requinte a mais a ser esclarecido: o que para ele era morrer, para ela simplesmente significava ir embora de si mesma. Se sentiu levemente culpada por não poder corresponder à intensidade dramática requerida, mas é que ela aprendera sozinha a arte da ressureição. Uma prática mais de cinquentenária da qual já não podia abrir mão, apesar de desejar o mínimo de crueldade ao perdão que oferecia. Que ele pudesse entender que não havia outra alternativa.

Não saberia dizer porque se lembrou das luzes dos dias nascendo e dos dias morrendo. Ela se lembrou que essas luzes lhe causavam uma estranha sensação. A impressão que o dia nascia em outro lugar diferente daquele em que ela estava. A mesma coisa com relação à despedida do dia. Ela sempre olhava hipnotizada a suavidade com que as luzes dançavam ao chegar e ao partir, e ela  imaginando em que lugar o dia estaria nascendo ou morrendo. Tudo acontecia em qualquer lugar, menos naqueles dias em que ela dedicadamente acompanhava as luzes…. as luzes.

Ela interrompeu esses pensamentos porque ele gritou e aproximou a arma quase a tocando. Deveria ser frio o cano daquela arma, deveria ser úmida a mão que a impunhava. Olhou diretamente para ele, se esforçando para que nenhum outro pensamento fosse mais ávido que o rito de passagem que ela precisava cumprir. Não sabia exatamente o que ele queria arrancar dela já que as sucessivas mortes a deixaram desprovida da capacidade de amar. Só restaram pequenas centelhas incapazes de fazer o dia nascer ou morrer. Só bastava que ele acionasse o gatilho para que o grande vazio assumisse a proporção exata em que a sua ressureição se faria urgente. Ela não queria ser inconveniente, mas precisava que ele entendesse que uma certa agilidade de propósitos era necessária porque a morte é sempre mais pungente quando súbita. Precisava terminar logo com aquele impasse, afinal existiam outros assassinos que esperavam a sua disponibilidade. Definitivamente viver leva à morte, por esta razão se especializou em ressureição. E isso a deixava levemente trêmula.

Então, subitamente, com a dignidade propicia, o avião levantou vôo e ela, finalmente, reconheceu que as luzes que aconteciam era o dia em que ela estava que morria, abandonado à liberdade de não ter mais a data a lhe dar os limites.

Um comentário

  • Tania

    Tudo a ver. O título tb poderia ser “das 1001 formas de morrer… e renascer” . Renascer é mais que ressuscitar, eu penso. Traz em si a idéia de nova vida, novas opções, mudanças. É nova oportunidade, sempre. Estamos fadados à esperança, cara mia. Adorei.

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