Aquele filme mexeu comigo

Avatar

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Este sucesso de bilheteria confirma uma tendência do público bastante peculiar que vem ganhando espaço nos últimos anos: a preferência por literatura e filmes voltados para a faixa infanto-juvenil. E este filão vem estimulando uma indústria cada vez mais criativa. Avatar é um exemplo da excelência da terceira dimensão. O filme já tem várias indicações para o Oscar, dentre as quais James Cameron compete na melhor direção.

A história é clássica no mais reincidente de todos os enredos: o confronto entre o bem e o mal. O que transborda nas tintas da contemporaneidade é o viés ecológico que justifica o embate estabelecido pela ganância humana e a  capacidade de resistência de uma civilização que valoriza seus recursos naturais.  Outro ponto tangenciado diz respeito ao olhar da ciência e a ótica militar. Embora conflitantes nas suas motivações, existiram dissidentes dessas duas visões para tornar mais aguerrida a épica reação do povo Na´vi.

Alguns heróis, a história confirma, se fazem na contramão de todos os contextos favoráveis. Jake Sully (Sam Worthington) é um exemplo impregnado de circunstâncias que dificilmente o apontariam para a titularidade de herói: entrou para o Programa Avatar apenas pelas características cientificamente compatíveis com as do irmão  assassinado na véspera da missão decolar; um militar com combatividade reduzida pela paraplegia; um caráter que aceita ser informante dos hábitos e costumes do povo alienígena – favorecendo a sua destruição – em troca de um investimento médico que possibilite recobrar os movimentos das perna. Um curioso que não tendo nada mais interessante no ceticismo de sua vida aceita sem nenhum idealismo o convite que lhe foi feito. Uma introdução que se aproxima em contornos de muitas pessoas que conhecemos. Nada de excepcional que seja identificação do “mocinho” da história.

Em Pandora os humanos instalaram uma estação espacial com o intuito de explorar o minério Unobtanium, capaz de solucionar a crise energética da Terra. Mas como a atmosfera de Pandora é tóxica, a ciência foi deslocada anos-luz e desenvolveu o tal Programa Avatar que permite que a consciência de um humano fique ligada ao seu avatar possibilitando a sua sobrevivência no inóspito ar de Pandora. Assim, por mero acaso, sem qualquer pretensão, se estabelece a linha condutora da formação do herói. O primeiro deslumbre é o gozo de poder andar, correr, por meio do seu avatar. O segundo degrau foi ser acolhido pelo povo Na´vi e depreender uma escalada iniciática até alcançar o privilégio de ser aceito como um semelhante. O terceiro e definitivo estágio é ele próprio se identificar como um Na´vi e assumir as consequências dessa viagem definitiva.

Aprender a cultura Na´vi, como em qualquer aprendizagem, depende da generosidade de alguém que se predispõe a transferir os ensinamentos básicos. Assim, Neytiri salva a vida de Jake quando alguns sinais da natureza o distinguem possuidor de uma energia vital respeitada por aquela civilização. Com isto Neytiri transforma a  sua hostilidade inicial  e passa a desempenhar a missão de preceptora de Jake na restauração dos elos partidos da sua individualidade que se formaliza pelo respeito e absoluta integração à natureza do lugar. Duas aprendizagens são importantes e se definem como leis gerais do universo: (i) nenhum sabor de vitória deve ser alimentado quando se vence um obstáculo porque cedo ou tarde se saberá que uma vitória maior para um obstáculo mais difícil será oferecido pelo caminho; (ii) o maior desafio a que um indvíduo pode se submeter é conseguir transformar as forças contrárias em energia propulsora dos seus objetivos. Cada um que se entenda nestas duas vertigens sobretudo porque elas convergem para a estranha evidência de que o verdadeiro Eu é alguma coisa distinta daquilo que supomos sobre nós mesmos.

Assim o filme segue na sua extraordinária tecnologia e seus efeitos técnicos e particulares. Nosso herói formado com traços da traição, da deserção, da cólera dos que desconhecem a covardia, nos arrebata. E o final, nem tão óbvio quanto o sugerido aqui, me levou a imaginar de quantos outros avatares ainda farei uso para entender os diferentes universos humanos. E viva o Carnaval !

3 Comentários

  • Brotosaurus

    Copiei de algum lugar: “Na indústria cultural de propaganda do capitalismo não há nada que aconteça por coincidência ou acidente. Nada!”

    Um filme que tem um orçamento desse tamanho e leva dez anos para ser produzido destina-se apenas para passar o tempo do público infanto-juvenil e encher as burras?

  • Tania

    Assisti em 3D e fiquei encantada. Após os tradicionais desenhos em 3D e depois de Sin City (uns anos atrás), estara aguardando algo que mudasse mais ainda o cinema.
    Adorei o filme, a história, o conceito. Boa diversão.

  • Monique

    Vocês ja assistiram Home?
    Do lugar de professora lhes digo, vale 20x mais Avatar, se o propósito for o de sensibilizar para questões de cuidado, afeto e preservação.

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