Sentimentos acontecem dos fatos

O Estranho Caso da Mulher que Encolhia

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A primeira rachadura daquele universo que lhe era tão familiar foi uma torção no joelho que a fazia, de tempos em tempos, vergar a coluna e arrastar a perna esquerda. Uma postura que facilitava em muito uma minuciosa observação dos caminhos por onde andava. Foi nessa época que ela se interessou pelas formigas: seus hábitos, a contínua comunicação entre elas e, sobretudo, pela organização que deveria haver no formigueiro. Até pensou que seria naturalmente climatizado se pudesse também viver com mais profundidade o sentido de manter os pés no chão a que se sempre se dedicara. Mas assim, daquele jeito, olhando atentamente para tudo que se passava no horizonte dos seus pés, ela intuía que o mundo crescia por sobre a sua cabeça. Mas os seus olhos não se dedicavam mais a adivinhar o que o céu poderia lhe trazer, bastava que soubesse lidar com os fatos quando consumados.

O segundo sinal foi uma dor também no lado esquerdo, que lhe aconteceu sem aviso prévio no ombro. Doía sem nenhuma possibilidade de conforto. Doía independente da posição que assumisse. Pensou que talvez fosse aconselhável se mudar para uma cidade mais quente, ou uma cidade mais fria. Uma cidade que entendesse de ombros e a natureza de suas dores. Ensaiou uma espécie de controle da mente num recurso extremo frente à falência dos analgésicos e antiinflamatórios. Um mantra que durava poucos segundos porque era rapidamente substituído por gemidos numa constatação quase indignada da necessidade de simplesmente suportar a dor e ter que inibir os movimentos dos braços. As circunstâncias fizeram-na manter os dois braços colados ao abdomen num condenado abraço a si mesma. E assim, daquele jeito, ela deixou de apontar os fatos, de segurar o mundo, de abraçar a vida. A dor não a impedia de perceber que o mundo crescia ao seu redor, por onde não mais os seus braços alcançavam. Mas isso não influenciava na dor que sentia…

A terceira fase, que sugere ser sempre a definitiva na frequência com que o destino articula a sua supremacia, aconteceu com a imobilidade da sua mão esquerda. Qualquer movimento arranhava músculos, tendões, ossos, sem mencionar a alma que nesta altura se contorcia, se debatia, tentando impedir que a dor nela se inserisse. Mas sem poder virar as páginas dos livros, sem poder acender os cigarros, sem poder segurar o volante do carro, sem poder espremer o limão na arte de caipiroskar, a alma estava imprensada na altura do chão: inibida das inconstâncias que a identificavam. E a vida crescia em todas as possibilidades que sua mão já não mais atingia.

Ela sempre aprendera que crescer trazia em si certo sofrimento. Superar os obstáculos e absorver novos entendimentos, se consolidavam com alguma dor. O que não podia supor é que o movimento inverso, o de encolher-se em relação às oportunidades, favorecia uma dor possivelmente maior. E nesta estranha inversão do fluxo natural de qualquer pessoa, ela ia diminuindo num sucessivo aporte de dores que aconteciam gradativamente para que ela pudesse suportar intensidades mais agudas de manifestações. E quanto mais a sua vida se restringia em movimentos, em percepções, em estímulos, maior a sensação de que o mundo se expandia na proporção inversa ao seu encolhimento.

Um dia, quando ela quase não mais conseguia acompanhar com os olhos a trilha das formigas que venciam qualquer barreira com uma obstinação em cumprir sabe-se lá que programação estabelecida, ela desabotoou a sua alma. E sua alma desabotoada disse não a qualquer método científico sobre tempo e espaço. Desvairada e louca como compete às básicas noções de liberdade, ela transcendeu exultante a pequeneza dos seus movimentos e dores. Olhou o céu erguendo a cabeça como há anos se privara. Seus braços abraçaram o tronco mais largo daquelas árvores que plantara, mas que as condições a impediram de ver crescer. Suas mãos colheram frutos, levantaram espadas, combateram exércitos da ignorância, atiraram sementes nas terras que não se sabiam produtivas, acobertaram crimes alheios e cometeram seus próprios delitos. Não havia limites. Tal magnitude ganhava proporções privilegiadas na medida em que ela recobrava a criança, bem pequenininha, que em tempos idos lhe ensinava as coisas do mundo. Por razões desconhecidas, mas muito convencionais, havia se perdido daquela criança e tornado inúteis as possibilidades uma vez impregnadas de pontos de vista distorcidos. Em um curto intervalo de tempo, todos os seus resgates estavam concluídos. Ela, encetada em novas perspectivas, substituíra suas dores por um silencioso movimento de corpo para muito além, muito além, de tudo que supunha conhecer…

Tamanhos só existem para uma mera confrontação de medidas. Uma bobagem que serve apenas para cultivar a dispersão.

 

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