Aquele filme mexeu comigo

Salve Geral

Salve

Esse filme é de 2009 e conta com a direção de Sergio Rezende. Acho que deveria começar dizendo que esse filme é da Andréa Beltrão, porque é um daqueles momentos especiais em que esquecemos por completo que a atriz está interpretando e a naturalidade é tamanha que passamos a viver as situações que nos são apresentadas. Méritos devem ser reconhecidos também nas atuações de Denise Weinberg e de Lee Thalor.

Devo confessar que escolhi este filme pensando muito mais na companhia, na pipoca, na esticada depois do cinema. Não me entusiasmei muito pela história e muito menos pelo cartaz do filme, que não me agradou em nada. Talvez esta postura despretenciosa, quase distraída, tenha contribuido em muito para que o impacto do filme alcançasse tamanha intensidade. Desarmada de expectativas a entrega foi absoluta. Acho que geralmente é assim no que diz respeito às questões da vida mesmo…. Foram necessários alguns minutos de silencio para que eu me recobrasse daquela espécie de bumbo batendo no peito e me desse conta que a realidade ainda não exigia de mim interagir com o contexto que assistira. Sorte existe e ela me acontece de quando em vez.

A expressão “salve” na cultura carcerária significa “recado”, portanto o título do filme depois de legendado é “Recado Geral”. E o recado dado pelo filme e pelos fatos (em grande parte verídicos) não deixa sombra de dúvidas que foi mesmo de avassaladora amplitude. Outro termo bastante utilizado é “sobe” que significa “matar”. Assim, por mais de uma vez algumas personagens decidiram se fulano ou sicrano iria “subir” ou não. A possibilidade do “ou não” foi bem acanhada nos acontecimentos.

O filme revive os difíceis dias da cidade de São Paulo em maio de 2006, quando integrantes do PCC orquestram um ataque muito eficiente contra policiais e agentes penitenciários no final de semana do Dia das Mães. O fio condutor é a prisão do filho de uma advogada como consequência de uma dessas idiotices inqualificáveis que acomete o ser humano (muitos deles). Essa mulher e esse filho de 17 anos, da noite para o dia (literalmente) se encontram imersos num universo que lhes é completamente desconhecido, mas que passam a conviver. E esta convivência vai sendo apresentada ao espectador com uma habilidosa dosagem de dramaticidade, de tal sorte bem construída que é praticamente impossível identificar qualquer vestígio de hegemonia nas práticas indistintas de policiais e de detentos.

Assim, numa disputa interna pelo comando do PCC uma rede de subversão é articulada afrontando a ordem instituída. Os diálogos dos detentos desafiam a autoridade policial, deixando a impressão que sob a autoridade só existe a força  do autoritarismo e nada mais. Ônibus queimados, policiais assassinados nos seus postos de trabalhos, agentes carcerários sacrificados para o fortalecimento das reivindicações, corrupção, emboscadas, a banalidade da vida. Um saldo de 152 mortos e a inseguraça espreitando uma cidade… um país inteiro.

O final é mesmo assim: não sabem eles, nem eu sei. Enquanto houver fome dá para se saber então que a vida acontece. Tudo o mais e o inclusive é uma questão de sorte…. aquela em que a vez é o quando….

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