Sentimentos acontecem dos fatos

A Francesa Difícil

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Outro dia encontrei no meio da minha abandonada coleção de canetas, uma das que trouxe na minha segunda passagem por Paris. Não é do tipo tinteiro, que constitui minha paixão e que os franceses sabem como ninguém moldar a pena do jeito que aprecio. É esferográfica, em plástico pouco resistente, e  nem sei se poderei substituir a carga caso o uso venha a extinguí-la. É uma daquelas canetas feitas para turistas com “Paris” escrito no seu interior, sem nenhuma noção de discreção. Alguns dias depois de tê-la resgatado do ostracismo com relação a mim mesma, levei um susto quando me dei conta que ela havia sido produzida na Dinamarca. Enfim estava interagindo com uma caneta de dupla nacionalidade, mas que vivia em Paris e esperava um destino qualquer. E coube a mim lhe dar uma permanência em terras brasileiras.

Estamos tentando nos conhecer há algumas semanas. Ela ainda está naquele estágio complicado de não me permitir a suavidade dos traços. Me obriga a pressioná-la contra o papel para se expressar com traços muito claros que dificultam a leitura e retesam os meus músculos da mão de forma dolorida. Essa personalidade forte me atrai e me obriga a um exercício de paciência que não me é comum no trato do dia a dia. Já afastei do campo visual todas as canetas tinteiros para que ela entenda que a supremacia e atenção são, no momento, exclusividade dela. Mas mesmo assim ela se mantém irredutível sem me conceder um fluxo ininterrupto na escrita. A todo momento tenho que descansar a mão e os pensamentos da relação estabelecida com ela.

Todas as caneta guardam em si um roteiro particular do que são capazes de escrever. Sempre tive muita atenção ao escolher a caneta com quem trabalhar. Existem canetas combativas, ferinas, imperativas nas idéias, exigentes, racionais no extremo uso da lógica. Existem outras que flutuam em galáxias distantes, que não propiciam pensamentos com cheiro de grama e orvalho, vivem num mundo idealizado e geralmente as defino como raios de sol que chegam de muito longe iluminando novas perspectivas. Todas as canetas são úteis e se oferecem às preferências daqueles que as utilizam. Até mesmo essa francesinha difícil na sua negativa tem algo a me oferecer. Talvez esteja querendo aprimorar a minha capacidade de negociação. Ou talvez queira me dizer para todo o sempre “não!”. O fato é que eu sou, eternamente, serviçal incontestável das possibilidades que elas me permitem. Colecionei algum dia canetas? Mais apropriado seria dizer que um dia colecionei os pensamentos, as disponibilidades que elas me concedem para registro.

O fato é que estou pelejando há alguns dias com essa francesa. Talvez se mostre arredia por eu tê-la trazido para essa terra tropical, preferia estar em outro canto da Europa. Agora tenho que lembrá-la que se não queria estar aqui que tivesse então se preservado do meu olhar e do meu desejo. Agora é tarde e não posso restituí-la à origem. Fico então nessa expectativa de entendimento, evitando com alguma concentração arremessá-la pela janela. Setenciar uma caneta à inutilidade foi sempre uma atitude muito ocasional e sempre o fiz virando o rosto com uma certa aversão moral ao meu gesto. Estamos assim: num impasse de funcionalidade. Ela me negando ser-lhe servil e eu sem me apropriar da funcionalidade da sua essência.

Me desculpem, mas tenho que interromper o texto….. o raio do teclado do computador está travando enquanto a “francesinha difícil” sorri à esquerda deste cenário estéril. Qualquer dia eu volto para lhes contar o desfecho desta relação…..

2 Comentários

  • Tania

    Então… vc deve ser a única criatura que se desmancha em remorso quando troca canetas por teclados…. Leve a francesinha para dar uma volta em Paris, se não agora, quando o destino assim quiser. Lá, quem sabe à beira do Sena, se despeça da menina colocando-a gentilmente na primeira lixeira que encontrar.
    Caneta temperamental…só podia ser francesa…rs.

  • Jandiara

    Vou ter que conter a ansiedade e esperar calmamente para saber como ocorreu o desfecho da relação.
    Enquanto isso, faço as contas para saber se a falta de deslize não é originária no tempo em que ela ficou inoperante!

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