Sentimentos acontecem dos fatos

Desde Sempre

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Essas questões de fuso e os tais números corretos de DDI são aprendizagens que nunca valorizei. Só assumem grandes proporções quando a vontade de contato além mar se manifesta, como agora,  e eu recuo sem a menor noção de quantas horas a mais ou a menos em relação a mim e quais os algarismos que devo colocar para estabelecer contato telefônico. Mas hoje vou superar a minha ignorância (ou resistência) fazendo uso de outros recursos.  Falar um pouco da propriedade do tempo vinculada ao sentido de permanecer, de estabelecer, de restabelecer, de ser contemporâneo… um exemplo de como o tempo costurado no amor consegue atravessar vidas inteiras para discernir a amizade.

Este exemplo tem para mais de trinta anos. Um encontro a partir de um mesmo colégio, depois de uma mesma sala de aula, que seguiu numa mesma universidade. E provou, quando nunca foi preciso provar nada, que amizade tem seus códigos secretos que não se pulverizam mesmo quando a proximidade física se faz escassa e as compatibilidades de percepções e entendimentos nem sempre são frequentes. Desde o uso do mesmo uniforme até os dias de hoje, muitas meias horas se passaram, tempo suficiente para saber que não tem mais jeito, a liga das almas já se fundiram de tal forma que nenhuma incompatibilidade é capaz de dissolver.

Lembro de quando eu aparecia nos intervalos das aulas do pré-vestibular para bater papo com uns e outros e saber que matérias haviam sido dadas. Já naquele tempo uma “tromba” e um discurso monossilábico me eram oferecidos numa velada crítica com relação aos caminhos de onde vinha e daqueles que provavelmente eu voltaria. Eu fazia que nem estava percebendo e continuava falando de assuntos que considerava mais agradáveis e que poderiam preservar o vínculo de troca. Eu era assim e ela era daquela forma. E daí? Talvez tenha sido essa pouca preocupação com as diferenças, mas uma valorização do muito de bom que podíamos estabelecer que permitiu que não desistissemos uma da outra. Acho que até hoje, em algumas situações, fazemos uso dessa percepção lá do início: “ih… tá difícil estabelecer contato…. daqui a uns dois ou três meses a gente se reencontra novamente….”. Penso que nunca cobramos nada uma para outra, quando as coisas “pegam” lançamos ao tempo a possibilidade de nos reaproximarmos ou não. Até agora sempre voltamos mais cheias de histórias para compartilhar.

Foram tantos acontecimentos nessa estrada compartilhada. Momentos felizes, outros nem tanto, e outros que marcaram e interferiram de forma definitiva para construir as pessoas que hoje somos. Em alguns dessas situações estivemos bem próximas, interagindo diretamente nos fatos; em outros momentos agimos sem nos referendarmos. Para então, depois, falarmos dos passos dados e em quanto nossa percepção identificava avanços ou retrocessos. Nosso caminhar até a Universidade cantando as músicas dos novos compositores que descobríamos (Belchior, Beto Guedes, Gonzaguinha….). Nossas escapadas das aulas para nos encontrarmos na biblioteca devorando Drummond e “caçando talentos” consagrados pela História que ainda não era nossa. Nossos envolvimentos amorosos sempre intensos na chegada e na saída. Nossas dúvidas eternas e nossas certezas que sempre se mostraram, felizmente,  passageiras num menor ou maior intervalo de tempo. Nossa busca profissional, funcional, sempre muito determinada por graus de satisfação que pudessem nos oferecer. Nosso olhar uma para outra apontando, mais como uma constatação do que uma crítica: “Você não tem jeito mesmo…”.

 Hoje é uma data especial para celebrar o ponto de partida de uma vida. Uma vida que transborda em dignidade, em respeito, e de uma consistência fantástica. Uma vida que para o meu privilégio se misturou na minha desde sempre, mesmo que eu não soubesse. Uma vida que enche de orgulho a todos que puderam de alguma forma saborear a possibilidade do encontro (mesmo aqueles que ficaram o tempo necessário de apenas “servir um cafezinho” e nunca mais). Uma vida que certamente tem todas as credenciais para afirmar que a história foi, é, e será bonita até o final. E eu daqui, sem noção de fusos e sem habilidade numérica para DDI, experimento uma espécie de vaidade em lembrar o aniversário da minha amiga e o privilégio de reconhecer nela o sentido que norteia a quase insustentável leveza de reconhecer um amigo.

Fique bem, comemore muito, meu carinho…..

Para J.A.B.

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