Sentimentos acontecem dos fatos

Destino Esperado

esperar

Então era assim. Iria esperar a chuva passar e só sairia de casa sentindo o sol na pele. Ela aprendera a esperar pelas coisas com muita habilidade. Isso porque intimamente entendeu, desde muito, que o destino a aceitara sem muitos pré-requisitos.

E tudo havia ficado muito simples, quase chatinho, depois dessa revelação – para ela uma espécie de sublime revelação. Desde aquele dia, mais ou menos há uns 20 anos atrás, a sua vida foi reconstruída pelo princípio pacificador da espera. E de tanto devotamento, às vezes tinha a enganosa sensação que sua alma desmaiava cobrindo os longos períodos de tantas e sucessivas esperas.

Sentia de alguma forma que aquela era uma espécie abençoada de revelação. O que aos 60 anos lhe trazia um conforto adicional muito vantajoso. Como o seu destino a tinha aceitado, e como esperar era um método de agradecer tal generosidade, ela não precisava da ansiedade de saber em detalhes o que lhe cabia esperar. Viver era mais ou menos como naqueles dias, quando jovem, de férias, ia para o ponto de ônibus e fechava os olhos enquanto contava até 50. Quando abria os olhos, o primeiro ônibus que passasse se tornava o exato trajeto que ela deveria fazer. Esperar lhe deixava tão disponível para a vida. Tão oferecida às coisas boas. Tão promiscúa na celebração dos pequenos acontecimentos que resultavam em mágicas alegrias. Tão realizada sem o contra-peso da ansiedade que os desejos sempre impõem. Assim, sem desejar nada, ela esperava. E, simplesmente, tudo que lhe acontecia era muito bem recebido, com largos sorrisos quase encantados de felicidade. Definitivamente, ter sido aceita pelo seu destino era coisa sem nome de tão grande e boa. Não costumava falar com as pessoas sobre isso. As poucas vezes que tentou, a reação foi um enorme silencio e um olhar que a fazia se sentir desconhecida. Então entendeu que ela esperava o silencio sobre essa intimidade. E fez do silencio um segredo, só para experimentar a sensação de ser inteligente e de ter compreendido muito bem a linguagem do destino que a aceitara.

Foi assim, esperando sem o peso do desejo, quase distraidamente, que ela colecionou muitas alegrias, e mesmo não desejando nada, essas alegrias fizeram dela uma mulher feliz.

Agora estava ali, esperando a chuva passar, envolvida com o destino do sol para sair de casa. E olhava pela janela o movimento da chuva brincando com o vento. Sorriu vendo as árvores no quintal: esperou e lá estava o primeiro cacho de bananas, crescendo dia a dia; esperou e foram muitos os limões distribuídos na vizinhança por aquela árvore tão pequenina e frágil apenas na aparência; esperou e o granizo arruinou o que indicava ser a melhor safra da mangueira e qualquer possibilidade de se colher um pequi. Alguns destinos se misturam a outros destinos e contribuem para a vida ser supreendente e sempre esperada nos encantos. Esperou… até que uma complicação séria a levou a uma hospitalização, quando então conheceu o médico que de seu amigo o destino o fez seu marido. Esperar era tão bom… Até uma árvore, batizada de “A Árvore das Ilusões”, o esperar lhe trouxe de presente: ela havia comprado uma cerejeira e o fruto oferecido foi nêspera. Ela comemorou muito o fato, sorrindo pelo equívoco, aparentemente inexistente, em esperar desejando as cerejas sem dimensionar a ilusão do seu esperado desejo.

Ah… sim: a chuva parou. Ela saiu de casa sentindo na pele todo o vigor do sol, enquanto seus pés saltavam as enormes poças d´água. Sorrindo, como há muito se habituara, saiu de casa convencida que esperar sempre vale a pena desde que seja para cumprir o destino que a aceitara. Amém.

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