Sentimentos acontecem dos fatos

Validade Vencida

validade

Entendo o ponto de vista do senhor. Só gostaria de explicar, respeitosamente, que eu não cometi infração alguma. Sem delito cometido, menos consistente a sua sentença de que “a infração cometida é grave”. Foi por não ter feito absolutamente nada que a minha carteira de motorista venceu. O senhor entende agora o meu ponto de vista? Eu não posso aceitar o “cometeu infração grave”. Da mesma forma, o senhor pode dimensionar a sua boa vontade ao me dizer “a sua carteira está vencida desde o ano passado”, ou me dizer “a sua carteira de motorista está vencida há quatro meses”. Essas diferenças neuro-linguísticas devem ter relação direta com o humor com que se acorda, com o que se comeu ou se bebeu na véspera,  com os acontecimentos de uma vida inteira ou aqueles de hora atrás. E aqui estamos: eu encostada no meio-fio, na cabeceira de uma estrada que me levaria ao norte de mim mesma, e o senhor em pé me repreendendo pela moldura da janela do meu carro, fardado com todos os detalhes, incluindo algemas e pistola. As circunstâncias fizeram nosso encontro bastante desagradável, acredito que para ambos.

Gostaria de dizer ao senhor que algumas outras coisas na minha vida perderam a validade e, assim como a tal carteira de motorista, no dia seguinte ao da validade vencida, não apresentei nenhum sintoma que me indicasse que as renovações se faziam necessárias. A carteira que lhe credencia a tentar me qualificar de infratora de alta periculosidade, não me deu nenhum sinal que a partir daquele dia a minha proficiência em conduzir um automóvel estava comprometida. Posso lhe garantir que desde o ano passado, ou desde os quatro meses de validade expirada (como o senhor preferir) não tive nenhuma indicação que o meu conhecimento ou a minha habilidade prática estavam prejudicadas. Posso inclusive lhe afiançar que em muitas situações nesse intervalo de tempo, demonstrei exímia perícia em contornar os riscos oferecidos ao volante. Mas, infelizmente, não posso lhe provar o que afirmo, e sei que hoje em dia não é mais possível acreditar nas pessoas sem que estas apresentem provas contundentes autenticadas de alguma forma. A confiança no ser humano perdeu a validade bem antes da minha carteira de motorista expirar…..

Eu fico olhando o pedaço pequeno de papel onde consta, ressaltada em vermelho, a data a partir da qual me tornei criminosa frente a sua autoridade. Na verdade, senhor, lido com sutilezas que são mais difíceis ao registro. Não tenho a mesma simplicidade para identificar quando outras vigências terminaram: a esperança, a confiança, o humor, o otimismo… para citar alguns exemplos do que não me são mais válidos. Nenhuma data indicativa do prazo vencido. E, ainda muito respeitosamente, gostaria de saber como o senhor qualificaria tais infrações já que a carteira vencida é grave…. Uma esperança já sem nenhuma validade assume que posição no ranking das gravidades? Não queria lhe deixar confuso, nem inaugurar esse seu olhar preocupado pela hipótese de estar dialogando com uma doente mental. Todas as minhas doenças, lhe asseguro, se instalaram na minha alma. A minha mente habilidosamente sabe perscrutar o destino do mundo, mas é a minha alma que aponta os desígnios da minha vida.

Então estamos assim: é a sua autoridade que prevalece sobre a minha ausência de neurose para conferir datas. No banco de trás do meu carro, a minha mala e o que julgava necessário para empreender uma viagem de uns 2.000Km para estar no mar. Posso transferir as minhas férias para a Papuda, mas não tenho nenhum interesse em ter audiência com o governador. Se o senhor entender que o caso é para o  fiel cumprimento da lei, sem os atenuantes que me caracterizam uma pessoa muito distraída, me rendo algemada a sua autoridade. Se considerar a situação digna de uma advertência, esta já foi dada. Precisamos resolver logo esse impasse porque o sol está abreviando nossa capacidade de argumentação e deixando sensível nosso sistema empático.

Voltei das minhas curtas férias muito reflexiva sobre a importância das datas que vencem. Incluindo uma multa cuja data de vencimento é bem próxima. Acho que essas férias foram mais rápidas que o tempo que levei para arrumar as coisinhas de viagem. Férias de uns 150km de distância, sem nenhum abastecimento de combustível e nenhuma foto para ser lembrada. Férias que terminaram com uma meia volta na estrada de data expirada……

3 Comentários

  • Tania

    Eca… que ninguém merece. Fui correndo olhar a “minha data de periculosidade”. Lamento que assim tenha ocorrido e lanço esse imprevisto na lista de coisas que acontecem para nos impedir (a mando do anjo de plantão) de sofrer coisa pior.
    Beijo

  • Daniele

    Adorei o texto, Vera. O mais divertido é quando esses pequenos momentos realmente nos levam para longe, para 150km ou para 3 centímetros adentro 😉
    Você tem uma veia cronista que bem podia mostrar mais. Me diverti muito com a sua pequena tragédia, se me permite confessar, rs
    Abraço,
    Dani

  • jandiara

    Sei que deve ter sido horrível a experiência de partir sem conseguir ir, ou chegar, sei lá, mas dei boas gargalhadas ao ler o texto, principalmente por conseguir visualizar a cena em toda a sua extensão! Beijos, eu

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *