Sentimentos acontecem dos fatos

Mãos que se estendem a uma realização

Sempre me irritou. Em pequenas ou exageradas proporções, o fato é que sempre me irritei com isso. Talvez agora seja tempo de falar sobre essa minha irritação, uma vez que já consegui dimensioná-la com tantas críticas e tantas hipóteses que neste momento nada mais cabe que escolher uma e identificá-la como minha. Mas é inegável que ainda continuo me irritando quando  essas crianças nos estendem as mãos e os olhos, num tom de voz quase inaudível, nos pedindo qualquer variante do que seja sobrevivência. E sobrevivência pode significar tantas coisas surpreendentes: às vezes pode ser um doce, ou um pão, algumas vezes um remédio, mas muitas vezes não assume contorno e nos chega abstratamente em forma de “uma moedinha”. O que fica bem definido meio a tantas variáveis é que me irritam, profundamente, essas pequenas mãos estendidas na minha direção, como se a condição de viver nunca estivesse ao alcance delas e sempre dependesse da minha disponibilidade garantir-lhe a existência. Desaforo a sobrevivência de alguém ter a simplicidade de “um trocadinho”. A minha sobrevivência é tão complexa e exige que eu peça tantas coisas maiores que um doce, um pão …..  Essas mãos magrinhas, sujinhas, e pequeninas só quererem mesmo é me agredir. Eu devolvo a agressão com a minha irritação. Onde já se viu pedir tão pouco para sobreviver?

E o mais irritante é que esses pedidos de sobrevivência sempre me acontecem quando eu estou me deliciando com os supérfluos  que alinhavam a minha própria existência. Basta eu ter o desejo e consumá-lo na visão de um doce exposto numa vitrine, para que eu seja tocada, na altura da cintura, por uma mãozinha frágil que sabe pedir mais com os olhos do que com palavras. Pronto, lá me vem a irritação. Essas crianças magrinhas e morenas, de sol e pouco banho, querem sobreviver dos meus pequenos prazeres secundários. Querem reduzir a minha sobrevivência ao essencial, ao que é apenas necessário. A eles, então, tudo o que consiste o meu luxo e nada do que consubstancia a minha sobrevivência. Sim, querem determinar a sobrevivência deles com tudo que for luxo na minha. É justo um critério desse?! E o docinho tão cobiçado passa a arranhar a minha garganta, passa a não ter gosto nenhum, enquanto a minha irritação vai crescendo na vermelhidão do meu rosto. Eu digo não, ou as vezes me limito a movimentar a minha cabeça negativamente. E termino o doce apenas por uma questão de princípio (ou fim, como queiram), porque o prazer de estar fazendo aquilo ficou perdido em algum ponto entre a minha boca e a pequena mão de alguém, agora recolhida pela negação.

Deve ter sido por uma irritação maior que a minha, que um dia desses eu ouvi alguém querendo promover uma campanha para que todos se recusem a dar qualquer coisa aos muitos pedintes que povoam esta cidade. O objetivo é fazer com que eles desapareçam. Se a idéia vinga é bem capaz mesmo de podermos assistir uma imensa procissão de mãozinhas estendidas, vazias, na direção da saída da cidade. Por favor, senhores, tenham um pouco de consideração com a minha irritação, não façam nada que venha a torná-la ainda maior. Os senhores não conseguiram me fazer feliz com essa idéia, o mínimo que conseguirão com isso é que a minha irritação cresça muito mais em uma outra direção. Por favor, me poupem dessas alternativas que não solucionam nada.

É bem verdade que algumas mãos que pedem, o fazem pelo vício ou por um reflexo condicionado do corpo na relação que estabeleceram com a vida. Pedir sem necessidade também existe. Pelo menos eu cometo muitos pedidos que não são necessários a minha sobrevivência, mas imprescindíveis ao meu luxo. Então, é relativo e controverso julgar a relevância dos pedidos que nos fazem, ou que fazemos. E é tão indigesto convivermos com um pedido que nos foi negado, quanto irritante ter que negar um pedido que nos é feito. Complicado tudo isso. Relativo demais. Aquelas mãozinhas que nos pedem qualquer coisa sem realmente precisarem, estão nesse momento pedindo o supérfluo. Só por isso devemos negar? Por que não conceder a eles o supérfluo que tantas vezes também precisamos tanto? Bobagem tentar avaliar o grau da necessidade  das mãos, ou olhos,  que nos pedem qualquer coisa. Se der para você dar, assim naturalmente, espontaneamente, o faça: você se sentirá muito bem e, no mínimo, não vai ter que conviver com o desconforto da irritação de ter negado.

Um dia desses, saí acompanhada a uma feira de importados. Na saída, inevitavelmente, se aproximaram dois meninos com as mãos estendidas. Tirei da carteira R$1,00 e entreguei a um deles. Minha acompanhante ficou indignada quando percebeu os dois meninos rindo do meu oferecimento. Deu meia volta e pegou o dinheiro do guri. Eu ria, surpreendida com a reação que ela foi capaz de manifestar. Sim, é claro que o sorriso dos garotos significava que eles só estenderam a mão por “curtição”, de brincadeira, querendo fazer uma caricatura da necessidade  que não lhes dizia respeito. E daí? A vida brinca com a gente o tempo todo, nos mostrando a tendência exagerada que temos de nos iludir com tantas coisas.  Pegar de volta o dinheiro significou o que mesmo? Que a gente só deve dar dinheiro a quem realmente precisa sobreviver? Mas só para dar um exemplo que contradiz isso: nós somos obrigados a pagar tantos impostos para que a instituição pública sobreviva, e ela é de tal forma mal administrada, que só posso concluir que é duvidosa essa necessidade de sobrevivência justificada por altos impostos. Mas pegar de volta o dinheiro talvez tenha sido uma necessidade de querer mostrar aos garotos que não devem tomar o lugar de crianças que sobrevivem daquela forma (sem luxo). Ou ainda pode ter sido uma reação ao fato de não admitir que a enganem. Não sei exatamente o que a motivou na recuperação do dinheiro de forma tão indignada. Talvez nem mesmo ela saiba direito explicar sua atitude. Os garotos, perplexos, devolveram o dinheiro prontamente, sem qualquer objeção.

O fato é que quando pedimos qualquer coisa, prevemos a alegria de ter nosso pedido concedido. Se pedimos alguma coisa que nos é absolutamente supérflua, a alegria não diminui por isso. É sempre bom termos nossos pedidos atendidos, seja lá qual for a natureza que tenham. Quando a gente pede alguma coisa sem necessidade, na verdade estamos pedindo o carinho, simplesmente, de alguém. Se algum dia essas muitas mãozinhas estendidas, que perambulam pelas calçadas, nos pedirem qualquer “besteira”, mesmo que não nos advirtam de que estão nos pedindo um supérfluo, acho interessante que possamos atendê-los. É tão bom oferecer qualquer coisa a alguém. Não precisamos restringir nossos oferecimentos somente àqueles que conhecemos. Dar qualquer coisa a quem não conhecemos também pode ser uma experiência interessante, uma espécie diferente de “amigo oculto”. E há um detalhe nisso tudo que faz grande diferença: eu tenho muito mais alegria em dar qualquer coisa a quem não está precisando, do que dar a alguém extremamente necessitado. Porque dar a quem necessita é uma obrigação moral se o que eu estiver oferecendo sobrar na minha existência; já dar sem nenhuma exigência da consciência é poder derramar a  generosidade largamente.

Tenho a impressão que já não ficarei tão irritada quando sair à rua e encontrar essas muitas mãozinhas que me são estendidas. Vou dar uma saída agora e verificar o efeito dessa crônica em mim. Acho que vai valer a pena.

Brasília 09 de janeiro de 1996.

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