Sentimentos acontecem dos fatos

A força de cada momento

atlas

Foi quando soube que um dia iria morrer que abandonou em definitivo o medo da vida. Em nome da morte experimentou a intensidade: arriscava tudo. Com um pouco de sorte iria morrer de repente para que não houvesse espaço para o vício do medo. A liberdade passou a ser o jeito do seu corpo manter, ou perder, o ritmo da própria respiração.

Todos os seus gestos soletravam sem tropeços: t-u-d-o  a-c-a-b-a. Para sempre a eternidade concentrada nos curtos intervalos dos capítulos infiltrados de acasos: o tempo de uma apresentação, de uma conversa, de um encontro, de uma música, de um beijo, de um dia, de uma noite, de um sorriso, de uma dança, de uma ligação telefônica, de um cigarro, de um gole, de um aceno….. Tempos descontínuos: os fatos bastando a si mesmos.

Não existiam histórias. Não existiam saudades. A esperança sem nenhum suspiro de decepção e a vida desprovida de qualquer mágoa. Traços retos marcados à ferro e alguma ironia. Achava que perdia muito tempo em falar ou escrever seu nome por inteiro. Inteiro significava carregar o nome de família. Não tinha sentido: estavam todos acabados. Porque tudo acaba inclusive nomes e famílias, por inteiro. A próxima música… o par seguinte… o assunto posterior….. não precisam nenhuma transcedência. Esgotavam-se com a naturalidade em depositar sobre o balcão os copos vazios, consumidos em seus propósitos .

Ganhava o dia na gastura dos sapatos. Esbarrava nos fatos e os vivia intensamente porque sabia que os próximos passos seriam novos fatos e outros ângulos esgotados em intensidade. Sobrevivia do tudo, pouco ou nada  que o dia lhe trazia. Exercia com muita simplicidade a destreza de carregar, dia após dia, o imprevisível futuro que era exclusivamente seu enquanto vida houvesse. E a vida insistia numa abastança que sempre superava o que seria apenas necessário. Ou o que para si se definia na  necessidade.

Achava estranho e perigoso a facilidade com que as pessoas perseguiam as continuidades. Não entendia que estrutura equivocada sugeria o favorecimento da permanência. Não tinha número de telefone, não usava agenda, e o calendário nada mais era que úma sórdida privação da liberdade. Encontros se iluminam na felicidade da afinidade circunstancial do momento, querer perpetuar o que foi bom é negar qualquer possibilidade do melhor existir. E melhor deve ser sempre a perspectiva das incertezas que regulamentam o futuro. Qualquer coisa diferente da fugacidade, sempre estará fadado a um carrilhão de concessões que aniquilam a espontaneidade, que promovem julgamentos, que moldam estranhas formas sem nenhuma identidade, que fazem o tremor das incompatibilidades a  única constatação de que tudo acaba.

 O medo de viver tem relação direta com a negação de que tudo acaba (t-u-d-o  a-c-a-b-a). Quanto mais quisermos o para-sempre, mais tolhidos os sentidos, os sentimentos, o fluxo dos fatos, a cintilância do tempo, o próximo passo, o ato, o poder do acaso…..

Nada é capaz de modificar a incerteza do momento seguinte de cada um de nós: podemos caber numa próxima respiração ou numa próxima vida. É só isso que vale o mundo que carregamos na força absoluta de cada momento.

Um comentário

  • Tania

    Porreta de bom!
    Ontem, por acaso, reassisti “Antes de Partir”. Que coincidência sua abordagem com o que vi na tela. Tudo acaba. Se pudermos não esquecer disso, podemos viver muito muito muito melhor. Beijo

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