Sentimentos acontecem dos fatos

Por entre flores, grama e árvores os dias escorrem os fatos

jardineiro

– E o quintal? Como está o quintal?

– Eu diria que sente falta do seu cuidado e atenção…

O dia amanheceu sem muita neblina. Sinal que o sol não iria fazer nenhuma cerimônia no calor das horas. O telefone tocou e o jardineiro perguntava sobre o meu quintal como quem desejava saber de um amigo que há muito não visitava. E de fato já não conseguia recuperar a data do último encontro do quintal com o jardineiro. Mas na época de estio a grama se retrai na ausência das chuvas. Meu quintal perde a intensidade das cores quando privado de água. Já a minha natureza absorve na pele um dourado incandescente. Mas aprendemos a respeitar nossas diferenças porque no desfile das estações revezamos as alegrias e as insatisfações numa equilibrada proporcionalidade de meses.

– Eu não pude aparecer porque sofri um acidente na mão. Estava trabalhando e um caco de vidro cortou o meu polegar obrigando os médicos a buscarem o meu nervo na altura do cotovelo.

Fiquei alguns segundos digerindo a notícia tentando, inutilmente, imaginar uma dor sobre a qual não tinha a menor referência. Qualquer dor que não a nossa, sempre nos será um reflexo embaçado, alheio e caricatural. Sem referência, minha vontade foi perguntar se doeu muito, só para ter algum parâmetro, algum vestígio. Mas jardineiros têm poções encantadas que  os fazem desvendar a essência das coisas:

– Foi a pior dor que senti na minha vida.

Fiquei muda e a impressão que tive é que ficaria para sempre desabilitada das palavras. O que seria para ele “a pior dor da vida”? A imagem estava congelada no meu pensamento: um nervo do dedo polegar sendo resgatado no cotovelo de um braço direito (logo o braço direito!). Ainda não conseguia a dimensão daquela dor. Será que a afirmação dele incluia aquele conjunto de dores que não sangram, que não se mostram em cortes e não nos levam à emergência dos hospitais?

Consegui perguntar sobre os movimentos da mão. Recuperação excelente segundo especialistas. Estava trabalhando (complementava a renda se fazendo de porteiro à noite) ignorando a licença médica. Explicou que ficar encostado pelo INSS era mais complicado que a cirurgia que teve que fazer. Estava tomando todo o cuidado com a mão e resignado com a promessa de longos meses de fisioterapia.

– Você está precisando de alguma coisa que eu possa ajudar? Infelizmente não posso lhe ceder parte sequer dos movimentos disponíveis nas minhas mãos. Talvez lhe adiantar alguns dias de trabalho a serem liquidados no tempo e hora de sua recuperação?

Não queria nada não. Só telefonou para dar uma satisfação pelo longo tempo de ausência. Ainda insisti pedindo que ele viesse em casa qualquer dia, para tomar um café ao menos, e eu poder verificar as marcas que “a pior dor de uma vida” haviam deixado na embalagem da vida. Ainda me disse que com ele estava tudo bem e delicadamente sinalizou que minha preocupação era desnecessária. Eu sorri pensando que isso  era somente um exemplo de muitas coisas desnecessárias que colecionava na convivência. Ainda me disse que o problema dele era só o tempo de ter a mão recuperada e que havia assistido tantas coisas mais graves, tantas situações sem nenhuma possibilidade de serem recuperadas….

Não sei se vocês estão percebendo o porquê, mas sempre tive a impressão que o quintal aqui de casa se ilumina nos dias que o jardineiro toca o sino do portão e a primeira atividade sempre é percorrer lentamente toda a área, supervisionando as necessidades de cada flor, de cada árvore, de cada centímetro de chão. Ver ele trabalhando inspira a possibilidade de um mundo perfeito, como se fosse a construção irrepreensível do melhor….

Preciso ter muita habilidade para comunicar ao meu quintal que por entre flores, grama e árvores os dias escorrem os fatos nem sempre evitáveis, nem sempre alegres. Que teremos que esperar um pouco (talvez um muito) para recobrar o ritmo compassado do universo. Que sejam doces os frutos dessa espera….

Um comentário

  • Tania

    Sim… outro dia lamentávamos o cajueiro tombado com a grande chuva do mês de abril.
    Descobrimos que falar da natureza já pressupõe falar de início e fim de ciclos. Deve ser assim também, quase natural, com aqueles que a ela se dedicam e, talvez por isso, carreguem para vida a simplicidade do “é certo assim”. Beijo

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