Sentimentos acontecem dos fatos

Entre o tijolo de segurança e os muitos pedaços

Cony

Oi Cony. Bom ter esbarrado com você acidentalmente no meu vôo para o Rio de Janeiro. Melhor ainda trazê-lo na minha volta ao lar. Parece que só me desloquei esses mais de 1.000 quilometros para fazer contato com você. Certamente empreendenria muitos outros além desses para o mesmo resultado. Sou uma pessoa de sorte!

Me impressionou seu olhar cravado no chão, não sei se em meditação ou oração…. um recolhimento amparado por um charuto na mão que a outra se entrelaçava. Talvez revendo os muitos pedaços das suas memórias. Longa estrada e benditos pedaços do seu eu conosco compartilhado.

Gostei da introdução com que Lygia lhe presta uma homenagem. Aliás, gosto de todas as homenagens que referendam você. Sempre serão justas quaisquer reverências direcionadas a você. Mas quando bem escritas, na tentativa de abraçar a sua alma, é a minha que se alegra. E isso eu não preciso explicar.

Sabe Cony, estou lendo o seu primeiro livro. E enquanto absorvo as palavras que emolduram os sentimentos (vigorosos sentimentos) constato que amadurecer é permitir a plenitude da simplicidade. Leio “Tijolo de Segurança” e me impressiona a maturidade posteriormente conquistada, para longe da espécie de ansiedade que me tira o fôlego nas aventuras e desventuras das personagens que iniciaram a sua mágica competência em fazer coisa única a palavra e o sentimento.

Viajei para trazer os seus dois extremos para perto de mim: o seu primeiro livro que  me prende e me lembra a jovialidade de um Beaujolais, e seu último livro que examino, minuciosamente, em todos os detalhes da edição. Não ouso ler uma linha sequer, só para render a sensação de prazer. Bem parecido com aquela  alegria antecipada  nas vezes em que o cheiro do café sendo coado  se apresenta de forma absoluta.  Assim “Eu, aos pedaços” me lança um sorriso, uma provocação. Eu devolvo o sorriso porque me desfiz da vontade de apressar a vida: nem os inícios nem os fins. Cedo aos caprichos do tempo e quase sempre me assusto com a confusão que os fatos aprontam no tempo.

Um conforto sabê-lo na cabeceira da minha vida. É certo que me instiga o seu olhar  lançado na direção do chão. É certo que preferia seus olhos investigando as nuvens. Mas é possível que o chão e as nuvens se prestem a um único sentido. Ou a sentido nenhum. Já não sei… e é de pouca importância saber dos sentidos perdidos. Mas você e a noite combinam. Ambos me emprestam paz: a noite me permite muitas hipóteses através do que não enxergo, e você todos os sentimentos de palavra em palavra.

Sim, sabemos que o tijolo é um pedaço de construção e que não há segurança no tempo das coisas….

Um comentário

  • Tania

    Então… desde que me decepcionei (nas eleições para prefeito) com o dito cujo, sequer consigo ler suas crônicas na Folha de S.Paulo. Coisa de criança, eu sei. Equivale àqueles xiliques de se jogar no chão com um olho de lágrima e outro espreitando para ver se a birra faz efeito. Nesse caso, o cansaço irá me vencer. Um dia. Vamos dar tempo ao tempo.

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