Sentimentos acontecem dos fatos

Relatos dispensáveis ao trabalho

aeroporto

E lá ia eu descendo a escada com um suspiro de tentar reduzir indignação pelo fato de ter que ir para o avião de ônibus e não pela passarela móvel tão prática e eficiente. Bobagem o princípio de contrariedade porque desconforto maior estava por acontecer com a visão de uma sala de espera minúscula para a quantidade de passageiros que aguardavam a chamada de vôos para diversos destinos. Sem disponibilidade de cadeira tentei reduzir o volume da minha pessoa para caber na falta de espaço que me ofereciam.

No alto falante e no painel, insistentemente chamavam passageiros para o  Rio de Janeiro. Por um período relativamente longo fiquei olhando para o painel sem me entender. Por um lapso de sentido (como são perigosos tais lapsos) minha alma se convenceu que estava no aeroporto do RJ e a convicção era tanta que ainda pensei “ah, agora estão fazendo uma mini ponte-aérea entre o Galeão e o Santos Dumont… muito louco essa exigência moderna em se ganhar tempo….” Não foi curto o intervalo dessa espécie aguda de crise de abstinência no desejo de mar que me colocou no aeroporto do RJ quando na verdade estava mesmo era no aeroporto de Brasília esperando embarque para Porto Alegre. No ombro uma mochila pesada e no braço um casaco para enfrentar  sete graus centígrados cuidadosamente anunciados para a minha prevenção. Impressionante que mesmo vivendo 20 anos em Brasília, é o Rio de Janeiro que insiste em se infiltrar na minha identidade.

O suor começou a escorrer no pescoço. As palavras avulsas que chegavam dos muitos celulares em funcionamento, ou das conversas olhos nos olhos de alguns passageiros. O ar condicionado destituído de efeito frente ao aglomerado de pessoas impacientes na expectativa de terem seus destinos devolvidos. Nenhuma cadeira disponível, fixei meu olhar na inutilidade de um elevador panorâmico sem oferecer outra paisagem além das entranhas do caos dentro do próprio aeroporto. Ambientes pequenos consumidos por uma quantidade grande de pessoas me transtornam. A irritação é o primeiro sintoma para a deflagração da crise de pânico. Recurso de emergência: acionar o mp3, Estabilizar o mundo no ritmo, compasso, tons, acordes, voz, instrumentos, melodias, versos….. Assim Ana Carolina passou a anestesiar aquela profusão de rostos, olhares se esbarrando, ternos, calças de brim (grande maioria), tênis, sorrisos, contrariedades…. pedaços circunstanciais de muitas identidades. O tal vôo para o Rio de Janeiro partiu sem levar a minha alma por inteiro. O espaço ficou menos impossível com a ausência dos passageiros embarcados. Identifiquei uma cadeira vaga e me instalei para o derradeiro súplicio de uma espera.

Atraso no vôo. Uma hora. Conexão em Guarulhos antes de chegar a Porto Alegre. Reunião teria que começar sem a minha presença. Se o mundo fosse perfeito tudo teria dado certo. Em Guarulhos acionei o celular para uma mensagem rápida que não precisava esperar retorno: vôo atrasado, comece a reunião sem mim. No avião, lotado, fiz amizade da minha última fileira no corredor. Moças que voltavam para suas casas em Porto Alegre após uma reunião em Brasília. Terceiro setor na ativa, mobilizando campanha para doação de medula. Lógico que me interessei pelo assunto e trocamos cartões de visita. Eu, sentada no corredor, última fileira de um avião super lotado, não podia nem mesmo olhar as nuvens naquele tapete mágico que feito para diminuir distâncias, me colocava muito longe da reunião onde deveria estar. Ainda faltava meia hora para Porto Alegre, foi aí que pedi ajuda à aeromoça: identificar um lugar vago na frente do avião que me desse condições de antecipar minha saída no momento do pouso. Assim foi feito.

Cheguei ofegante na reunião, correndo pelos corredores do aeroporto, correndo ao encontro de um taxi, pedindo velocidade ao motorista nas estradas que ladeiam o rio Guaíba. Um céu cinzento, um frio de doer os ossos, uma reunião recuperada, missão cumprida.

Um comentário

  • Tania

    Então… entre preocupada e divertida, lembrei das vzs que viajava sem parar a trabalho.
    Confusão de aeroportos, sotaques, comidas, hotéis. Perdi a conta das vzs que abria um armário no quarto de hotel pensando que era o banheiro…rsrs.. mas pelo menos estava sonada!
    Cuide-se! bjs

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