Sentimentos acontecem dos fatos

Mais uma falta de luz por aqui

Luzes

Pronto! Agora danou-se. Estava no meio de uma planilha e a luz foi embora. E foi embora batendo o pé com um estrondo alto de assustar a mim e a meus cachorros. Rua apagada, casas que foram sugadas pela noite sem chance de algum contorno. Lá longe, bem longe, os que desfrutam da luz… luzes penduradas no relevo, suspensas no ar…. O som de outros bichos, que não os homens, ganham intensidade: um grilo parece convocar o espetáculo. Com alguma sorte pode ser que cheguem a cigarra, a coruja, a rã… e quem mais quiser acompanhar a majestade dos cachorros que se manifestam.

Não sei quanto tempo ainda tenho: ou a luz chega primeiro ou a bateria do notebook determinará o tempo das palavras por aqui. Além dos insetos que entram pela janela procurando a luz da tela do notebook, também entra o som de um saxofone. Um saxofone descoberto na noite de muitas restrições … Se a luz não tivesse faltado o que estaria fazendo esse músico? Na frente da televisão ou cumprindo o ritual convencionado pela rotina. É um sax tenor… grave, triste, rasgando a própria solidão para encontrar o meu silêncio. O som se estende no fôlego de muito treino, e ficam mais tristes as notas que disparam imagens de quem chora, de quem sofre, de quem não consegue enxergar na noite os sentimentos.

Me lembrei do dono da padaria que na reportagem jogava toda a mercadoria no lixo em função da prolongada falta de luz no seu estabelecimento. Estava revoltado, e com razão. Telefonou para a companhia elétrica e o retorno foi a sugestão de entrar na justiça para reclamar os prejuízos. Também ficaria revoltada se recebesse essa meia confissão de culpa que no fundo acompanha uma enorme certeza que qualquer processo leva anos para ser julgado…. tempo de não mais existir uma padaria.

O músico desiste de tocar. E o meu silêncio fica desacompanhado de uma trilha sonora. Ainda insistem os cachorros e os grilos, mas são melodias que a minha alma despreparada não reconhece com facilidade. Passo em revista o dia e rendo homenagem à mangueira que agradece o meu cuidado com inúmeras flores, mesmo sabendo que nem todas serão frutos. Sempre existem dificuldades no caminho. No caso da mangueira, terá que suportar o vento e a intensidade das chuvas que um dia chegarão entre as flores e os frutos. As delicadas flores do limoeiro, branquinhas, mimosas, que exigem toda atenção para que a água da mangueira não desfaça o frágil vínculo que as mantém nos galhos até se tornarem frutos. Jabuticabas estão de recesso, ou os passarinhos ávidos demais que nem esperam que elas amadureçam. Os dois mamoeiros se fazem de tímidos e parece que fizeram um pacto qualquer de só produzirem em larga escala quando a seca for embora. Que assim seja se assim quiserem, pois a natureza das coisas merece respeito, incluindo a minha, naturalmente. Quando os cachorros correm, levantam uma poeira fina, vermelha, que identifica sem equívocos a estação do ano e o trabalho de limpar a casa.

A lua não é cheia e, portanto, não agride em nenhum aspecto a intensidade da noite. Até ontem ela se exibia na minha janela, mas hoje não apareceu na minha direção. Espero que não tenha sido ela que explodiu nos roubando a luz….. Seria simples demais, ou romântico demais. A vida continua sendo mesmo um emaranhado de fios que quando rompidos causam alguns estragos, nada mais que isso. E  nessas situações ficamos assim, coçando a cabeça sem saber bem o que fazer, desalinhados do comum a que deixamos de ter acesso.

Bom, a bateria venceu. Está acabando e a luz ainda não voltou. Fecho a noite com o meu sono. Me preparo mais cedo para um novo dia. Não me acostumo com essa sensação de respiração suspensa: parece que todos estão numa determinada posição, imóveis, esperando que a luz volte para retomarem o entendimento da vida. Perdemos muitas oportunidades quando não sabemos inovar tudo aquilo que nos aprisiona o hábito. Vou dormir que é melhor.

Um comentário

  • Tania

    Viva a falta de luz! Nos brindou com mais um belo texto, nos dando um pouquinho mais de você. Te permitiu descansar mais. Cuidar mais ainda do jardim, dos bichos. Que bom….rs.

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