Sentimentos acontecem dos fatos

Estreita janela do avião

janela

A primeira meia hora foi de cochilo. Recuperação do acordar cedo, do ajeita aqui – faz ali, do check list de todas as necessidades, repetido umas cinco vezes até absoluta segurança (como se isto existisse) do tudo ok.

O sol atravessa a estreita janela deixando realçados os pequenos arranhões no material plástico do visor. Levo um susto quando percebo uma fumaça escura saindo da terra e se espalhando no ar. Procuro identificar o relevo, mas fugi de todas as aulas de geografia e o que vejo lá embaixo é um marrom e um verde que se revezam em proporções; e de vez em quando a silhueta de um rio. Hoje, além do marrom, do verde, do desenho dos rios, me deparo com vários focos de incêndio. Pela lógica da rota de vôo, essa situação triste e impressionante pela extensão, deve acontecer no estado de Minas Gerais. Não bastasse Mato Grosso do Sul ocupar as manchetes com assustadora devastação de uma cidade inteira pela queimada, agora assisto do alto essas feridas em Minas Gerais. Por ironia, meu campo de visão abrange dois pontos de queimada e ao mesmo tempo a largura majestosa do Rio São Francisco. Um ponto tão exagerado em largura que de alguma forma penso que o rio faz um esforço para atingir o que promove as nuvens escuras que saem da terra em sinal de luto ou de um desesperado pedido de ajuda.

Na poltrona a minha frente, uma mão masculina segura a tela de um notebook. Trata-se de uma apresentação em power point. A palavra “farmácia” aparece com bastante freqüência no que me é dado bisbilhotar pela fresta entre duas poltronas. Vôo bastante cheio, passageiros e suas histórias. Desconhecidos. Até mesmo quem me chamou pelo nome (a memória me impediu retribuir), me reconhecendo transcorridos 10 anos do mesmo lugar onde trabalhamos. Desconhecidos. Gentis desconhecidos. Uma estimativa de 121 passageiros (perguntei quando fiz o check in). Se incluirmos a tripulação chegamos a 127 almas arremessadas a 10.400 metros de altitude. Não sei o que nos reuniu nesse mesmo vôo. Nós, gentis desconhecidos. Acaso e coincidência ainda não conseguem ocupar espaço importante em mim, embora comece a rascunhar nessa altura do campeonato algumas noções, mesmo que tardias, do grande desperdício de se levar muito a sério os sucessivos enredos que trazemos para o samba das nossas vidas.

Uma amiga me disse que tudo é uma grande ilusão e que precisamos desesperadamente imaginar, fantasiar, criar algum sentido, apenas para não enlouquecermos. Em função disso, na nossa avenida, desfilam alguns blocos: religião, partido, time de futebol, clubes, agremiações, e o que mais existir que nos permita uma identificação, mesmo que forjada. Mas somos assim, gentis desconhecidos, trancados no avião ou na vida, amarrados em cintos de segurança que garantem muito pouco, e vários panfletos que nos alertam sobre o que é proibido.

Já me serviram o “maxi goiabinha” com coca-cola. Me lembrei dos versos da música: “faltava abandonar a velha escola, tomar o mundo feito coca-cola...” Música muito antiga que somente as minhas rugas de expressão e as rugas da moça que me chamou pelo nome, podem lembrar das demais estrofes.

Começo a sentir frio apesar do sol ainda estar disponível ao contato do meu braço. O comandante avisou que a temperatura em Porto Alegre está em 23 graus. O que eu faço então com o casaco e o cachecol que trouxe? Gostaria de pegá-los, agora, lá na valise e me ajeitar dentro deles. Talvez, por destino, a mala continue sendo mais apropriada para eles, mas em trânsito nas alturas eles me dão saudade.

Na fileira oposta a minha, vejo no chão uma grande cesta de palha, material bem característico do nordeste do país. Digo isso porque muitos desses gentis desconhecidos iniciaram viagem bem antes de mim. Quando entrei no avião, em Brasília, iniciei a minha viagem no que era apenas escala de outros. Mas estou integrada, sem muito desconforto, na nossa condição de gentis desconhecidos.

Daqui a meia hora vou poder fumar. O sol está bastante baixo, quase encostando na linha do horizonte (como se existissem linha ou qualquer horizonte). Vou chegar na noite de Porto Alegre….

Afirmei que éramos gentis desconhecidos! Pois o notebook a minha frente foi desligado e da cadeira que o operava, levanta uma senhora (a mais tempo senhora que eu) rumo ao toilette. Desconhecidos que somos em gênero, número e grau (ênfase em gênero!). O processo de descida já se inicia. Fecho minha caneta e meu caderno (sou do tempo em que os erros cometidos deixavam vestígios…).

Um comentário

  • Tania

    Então, viajar é sempre bom, tendo em mente que essa afirmativa requer, quando se trata de viagens a trabalho, de um significativo intervalo entre as mesmas.
    Essa coisa de país continental faz mesmo de nossas aeronaves um sarapatel de gente, sotaques e características sempre instigantes que, por mais que estejamos soterradas no eterno labor da rotina, lembram o mestre: navegar é preciso.
    Beijos domingueiiros.

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