Sentimentos acontecem dos fatos

Fim do caminho em meia pista

motocicleta

Daquele ângulo o céu era imenso de um superlativo exagero. Sentia frio. Naquela posição, estirado na rodovia, confuso com a velocidade dos fatos, eu encarava uma pequena nuvem passeando solitária no azul que estreava o novo dia. Conseguia ver a placa azul do carro que interrompia o fluxo em meia pista. Conseguia ver também a motocicleta tombada a uns 50 metros de mim, eu também tombado. O homem gesticulava e gritava ao celular, abrindo e fechando o braço com um semblante tenso. Todo imperativo. Antes ele se aproximara de mim, olhos arregalados: “Você está bem?! Não se mexa! Não faça nenhum movimento! Está me ouvindo?!” Eu obedeci. Quem sabe assim ele poderia ficar mais calmo… Até coloquei meus braços sobre o peito. Esse movimento me trouxe alguma dor, foi quando eu vi a nuvem cruzando o céu… O vento batia nas minhas pernas. Se ao menos eu tivesse colocado as meias sugeridas pela minha mulher, eu teria me preservado daquele vento que tocava a minha pele entre a calça e os tênis. Meu capacete ainda estava na função de me proteger e eu via aquele desmedido de céu pela moldura do visor.

“Não sei! Não sei o nome dele! Ele está aqui estirado na estrada perto do Aeroporto! Não! Não o atropelei não! Ele simplesmente caiu da moto na minha frente, mas eu consegui frear o carro sem encostar nele! Isso não importa agora! Vocês têm que vir já para cá! Não sei nada de primeiros socorros!!”. Eu desviei meu olhar da nuvem, rodei os meus olhos na extensão do meu campo de visão: minha moto parecia menor naquela posição inadequada aos seus objetivos; o homem de terno ao telefone, desligou o telefone e olhou para mim; na outra metade da pista os carros passavam lentamente dividindo o olhar entre a minha moto e eu. Tentei levantar, mas a dor me fez retornar à posição com um gemido. O homem de terno abaixou e me pediu mais uma vez que não me movesse. Era tão forçada a sua calma que se outras fossem as circunstâncias, me teria feito rir muito. Mas ali, com frio, experimentando uma dor genérica e ainda sem entender bem como eu caí da moto, agradeci silenciosamente a iniciativa estabanada de socorro. Tentei pedir que ele retirasse o meu capacete, mas a minha voz não conseguia atravessar a garganta e foi me dando um cansaço e um sono incontroláveis. Talvez o moço de terno tenha se lembrado daqueles filmes de ação, pois num tom de voz alto pediu que eu falasse com ele e que mantivesse os olhos abertos. “Não durma! Não durma! Olhe para mim!” Eu levei foi um susto, mas tentei um sorriso que o meu capacete o impedia de perceber. Ele começou a falar: “Essa terça-feira parece que vai ser de muito calor. Nem são ainda sete horas e a claridade abafada nos acontece. Você estava indo para o trabalho?” Eu fiquei olhando para ele e as palavras secavam antes de se transformarem em sons. O meu silencio não o intimidava: “Eu estava indo pegar a minha filha que está voltando hoje do Tocantins. Ela fez parte daquele Projeto Rondon e ficou alguns meses trabalhando como pediatra – recém formada – na cidade de Gurupi. Está voltando hoje. Estou com saudades, mas vou esperar os bombeiros chegarem. Já tive uma motocicleta, mas antes de casar. Hoje prefiro quatro rodas. Você pilota há muito tempo?” Eu queria bater papo com aquele estranho. De uma certa forma me sentia incomodado sem entender como aquele homem – bem apessoado, vestindo um terno de bom tecido, nobreza designada pela chapa azul do carro moderno parado próximo ao meu corpo – interrompia o curso do seu dia (mal iniciado) para me fazer companhia no asfalto que eu não deveria estar, numa situação que a memória não conseguia reconstituir. Eu olhava… Eu olhava aquele homem. Olhava o céu.  Pensava no trabalho que eu não conseguira chegar; no susto que minha mulher teria; nas recomendações que viriam para eu abandonar a motocicleta. O mais difícil era tentar pensar no imponderável….  Mas sempre foi o imprevisível a determinar ciclos, encontros, direções…  O indefinível me trouxe ao asfalto e me pôs em contato com o homem distinto, mas sem nenhuma habilidade para socorrista.

E ele falava…falava… Praticamente me contou toda a sua vida. Perdi parte da narrativa porque a dor ainda genérica, assumiu uma intensidade aguda. Minhas pernas pareciam não caber na largura da calça. O sol abraçava a manhã. O homem abaixado perto de mim enxugava o suor do rosto com um lenço que não sabia de onde o tirara. Era distinto aquele homem. Pessoas distintas não sabem o que fazer quando as porções da improbabilidade atravessam as suas vidas. O sol que abraçava a manhã me incomodava. A situação toda me incomodava em dor, não entendimento e  pela distância a que me obrigara da rotina do que seria o meu dia. Ouvi a sirene….

 Primeiro chegaram os policiais. Me deixaram a impressão de extremo contragosto por estarem ali. Pensei até em lembrá-los que eu também não queria estar ali não. Saíram do carro e foram lá me espiar, só para avaliarem o tempo que deveriam se dedicar àquela ocorrência. Eu passei a ser uma ocorrência indesejada e nada mais que isso. Me espiaram, se olharam em silencio e foram na direção do homem distinto. Enquanto um anotava as respostas do homem distinto, o outro entrou no carro e falou qualquer coisa pelo rádio, que eu não escutei porque estava muito concentrado em interpretar os olhares e o silencio da cena anterior. Acho que foi naquela hora que me dei conta que a minha vida seria diferente de tudo que me acostumara até ali. Procurei no céu a nuvem solitária, mas ela já havia me abandonado me deixando sem referências no céu imenso em azul.

Vieram em seguida os Bombeiros. Chegaram com voz mansa, mas firmes no olhar. Se preocuparam em me informar tudo que iriam fazer para me transferir para a ambulância. Pareciam ter pleno domínio da situação. O homem distinto se aproximou, falou qualquer coisa com um dos Bombeiros e segurou a minha mão. Nem me importei com a dor que aquele gesto me causara. Naquela altura o trânsito na rodovia era mais intenso e complicado em fluxo no local da minha ocorrência. Um dos policiais apitava sinalizando para os motoristas que seguissem caminho na meia pista que sobrara ao tráfego. Quando os Bombeiros retiraram o meu capacete, após uma série de perguntas que eu ia respondendo “sim” ou “não” apenas com um código do meu polegar previamente combinado, a dor só não foi mais insuportável que a sensação de medo por desconhecer os níveis de gravidade localizados em mim.

Dentro da ambulância, recebendo as primeiras providências de praxe, antes da porta ser fechada ouvi o policial falando para o homem distinto que olhava na minha direção ainda sem saber muito bem que atitude tomar: “Esse nunca mais pilota uma motocicleta se conseguir sair dessa”. Foi a última frase que ouvi antes de desmaiar. Nem sabia ainda que esta frase seria a legenda para os desafios de superação que me acompanhariam anos incontáveis no fio da vida que me caberia valorizar.

2 Comentários

  • Carmen Moreno

    Vera,
    Concluo a leitura de Fim do Caminho em meia pista. Ainda com o fluxo respiratório inquieto, ou insuficiente, sento-me e escrevo para você a dedicatória do meu novo livro Loja de Amores Usados (poesia). Seguirá, em breve, pelo correio. Volto para o computador, com a urgência de compartilhar minha angústia. Bem acolhida angústia – que a boa arte nos provoca. Seu belo conto: tensão, linguagem densa e intimista. Uma lupa sobre o humano.
    Obrigada.
    Bjs,
    Carmen Moreno

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