Sentimentos acontecem dos fatos

Lembranças solteiras, Lembranças casadas

Lembranças

Do outro lado da linha, muito além do somatório de traços com que palavras são escritas: “Não sei se você me entende, mas eu estou vivendo muito de lembranças solteiras”. Fiquei em silencio medindo o pulso do coração entregue. Continuou: “Olho as mesas a minha volta e as pessoas, mesmo incomodadas umas com as outras, estão ali porque têm em comum ao menos uma história construída em conjunto: lembranças casadas…” Acendi um cigarro. “O que eu percebo é que as lembranças casadas já foram construídas, esgotadas na frequência. Não tenho mais tempo para construir lembranças cúmplices”.  Uma tragada funda, com direito à manifestação de irritados pulmões. “Minhas lembranças casadas estão lá há 30, 40 anos atrás, com o lastro de uma aprendizagem construtiva, modeladora de princípios, agregando valores comungados numa dialética sem nenhuma reserva de domínio individual. Não há mais a oportunidade de construir essas lembranças casadas. A memória, a vida e as relações ficaram estreitas demais, solteiras em espaço e disponibilidade. Cabem em qualquer prática fundamentalista, e quando se lida com verdades absolutas perde-se a cintilância das horas num tempo oco e sem ressonâncias. Vivo as lembranças solteiras”.

No quinto cigarro que me competia naquela observação de alma, entre as gentilezas das lembranças solteiras e das lembranças casadas, que reivindicavam uma sutil companhia nas emendas das palavras ouvidas, eu vasculho a memória e resignadamente lhe ofereço todas as possibilidades da pessoa que me reconheço de lembranças viúvas.

Amém!

2 Comentários

  • Tania

    Então, sempre temos tempo. Nunca temos tempo. O recomeçar é do homem, cara amiga. Está lá, no danado do genoma, a informação que nos acompanha desde a água, do lagarto: recomeçar. Lembranças solteiras remetem ao Fernando: “eu, que não tenho par no mundo”.
    Que coisa mais difícil numa manhã de sábado. Beijo

  • Jandiara

    Complicado demais. Entretanto, apenas mais um momento de tomada de consciência como muitos que acontecem. Como sempre um cardápio variado, possibilidades infinitas. Uma nova vertente, as lembranças viúvas, vêm encorpar as fileiras. De repente, Marietas, Ophélias, Áureas e Deises teimam e se intrometem com uma presença contundente. Mas, sobrevivente por natureza, opto pela construção de novas lembraças. Solteiras, para começar . . . Beijos, eu

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