Sentimentos acontecem dos fatos

ENCAIXE DE UM ELO QUE NÃO FOI EM VÃO

2010

Mais um elo acrescentado na corrente do tempo. E temos que agradecer, com menor ou maior entusiasmo, a porção de vida (uma espécie de tira gosto existencial) devorada pela fome dos sentidos (e muitas vezes do sem sentido). A tinta fresca desse mais recente complemento no arco da história, a escolhi dourada, pela associação com a abundância e o poder.

Certamente 2010 foi um ano intenso, vigoroso. Um ano para se encarar, sem nenhuma surpresa pelo sangue derramado por trás das armaduras cintilantes dos equivocados silêncios. Um ano de altos decibéis, atiçando reflexos, exigindo reações precisas. Todas as rotas de colisão convergindo para o triunfo dos sobreviventes (não há reverência possível para os que ficaram pelo caminho).

Foi um ano apinhado de ensinamentos, nem todos aprendidos – como convém à condição de estar vivo. Aprendi que ter esperança não determina resultados. Aprendi que mamoeiros têm vida breve e se não houver máxima atenção eles morrem sem identificação afetiva. Aprendi a não querer entender tudo e, sobretudo, a sorrir para tudo que não entendo. Aprendi que a felicidade sempre esteve comigo e atende pelo sobrenome solidão. Aprendi que a gentileza, com muita freqüência, é o disfarce da lâmina, afiada habilidosamente na oportunidade do golpe. Aprendi, com imensa gratidão, que amigos são seres encantados que surpreendem por telefone, por carta, que permanecem mesmo discordando, que vão junto mesmo quando perdem a carona dos fatos. Aprendi que a dor é um analgésico insubstituível para a necessidade de superação – potencializado pela contagem dos dias. Aprendi que perder é a liberdade definitiva da persistência para se ganhar todas as direções. Aprendi que futuro é a aceitação amigável do vento espalhando suavemente os fatos, os sonhos, as perspectivas, e ainda lhe empresta um sorriso para administrar o tempo.

Enquanto observo o elo se ajeitando na corrente da vida, levará dois meses para a dourada tinta secar por completo e eu a recolher. Precioso adubo da árvore cujos frutos me alimentarão. Delicadamente me despeço de 2010. Um suspiro discreto.

Um comentário

  • Tania

    Então… esse elo ainda está a secar, ou seja, a cor pode mudar. Lindo, tudo. Principalmente que “a felicidade sempre esteve comigo e atende pelo sobrenome solidão”.
    Beijo

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